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Assim, longe de ser resolutamente pós-moderno, o ciberespaço pode aparecer como uma espécie de materialização técnica dos ideais modernos. Em particular, a evolução contemporânea da informática constitui uma surpreendente realização do objetivo marxista de apropriação dos meios de produção pelos próprios produtores. Hoje em dia, a "produção" consiste essencialmente em simular, processar informação, em criar e divulgar mensagens, em adquirir e transmitir conhecimentos, em coordenar-se em tempo real. Assim sendo, os computadores pessoais e as redes numéricas colocam efetivamente nas mãos dos indivíduos as principais ferramentas da atividade econômica. Mais ainda, se o espetáculo (o sistema mediático), de acordo com os situacionistas, é o máximo da dominação capitalista (2), o ciberespaço então está realizando uma verdadeira revolução, pois permite ou permitirá, em breve a cada um dispensar o editor, o produtor, o transmissor, os intermediários em geral, para dar a conhecer seus textos, sua música, seu mundo virtual ou qualquer outro produto de sua mente. Em contraste com a impossibilidade de responder e o isolamento dos consumidores de televisão, o ciberespaço oferece as condições de uma comunicação direta, interativa e coletiva.
A realização quase técnica dos ideais da modernidade coloca imediatamente em evidência seu caráter, não irrisório, mas parcial, insuficiente. Pois está claro que nem a informática pessoal, nem o ciberespaço, por mais generalizada que seja a totalidade dos seres humanos, resolvem com sua mera existência os principais problemas de vida em sociedade. É verdade que realizam praticamente formas novas de universalidade, de fraternidade, de estar juntos, de reapropriação pela base dos instrumentos de produção e comunicação. Mas, no mesmo movimento, desestabilizam, em alta velocidade e freqüentemente de maneira violenta, as economias e as sociedades. Ao mesmo tempo em que arruinam os antigos, participam da criação de novos poderes, menos visíveis e mais instáveis, mas nem por isso menos virulentos.
A cybercultura aparece como a solução parcial de problemas da época anterior, embora constitua, por sua vez, um imenso campo de problemas e conflitos para os quais não se está desenhando ainda nenhuma perspectiva de resolução global. A relação com o saber, o trabalho e o emprego amoedam a democracia, o Estado precisa ser reinventado, para citarmos apenas algumas das formas sociais mais brutalmente questionadas.
Num sentido, a cybercultura perpetua a grande tradição da cultura européia. Noutro, ela transmuda o conceito de cultura.
A cybercultura ou a tradição simultânea
Longe de ser uma subcultura dos fanáticos da rede, a cybercultura exprime uma grande mutação da própria essência da cultura. Conforme a tese que desenvolvi neste relatório, a chave da cultura do futuro é o conceito de Universal sem totalidade. Nessa proposição, «o Universal» significa a presença virtual da humanidade para si. O Universal abriga o aqui e agora da espécie, seu ponto de encontro, um aqui e agora paradoxal, sem lugar nem tempo claramente atribuível. Por exemplo, uma religião universal dirige-se supostamente a todos os homens e os reúne virtualmente em sua revelação, sua escatologia, seus valores. Da mesma maneira, a ciência exprime supostamente (e vale por) o progresso intelectual da totalidade sem homens, sem exclusão. Os cientistas são os delegados da espécie e os triunfos do conhecimento exato são os da humanidade em seu conjunto. Da mesma maneira, o horizonte de um ciberespaço que consideramos universalista é o de interconectar todos os bípedes falantes e fazê-los participar da inteligência coletiva da espécie no seio de um meio onipresente. De maneira totalmente diferente, a ciência e as religiões universais abrem lugares virtuais onde a humanidade encontra a si mesma. Embora exercendo uma função análoga, o ciberespaço reúne as pessoas de maneira muito menos «virtual» do que a ciência ou as grandes religiões. A atividade científica implica cada um e dirige-se a todos pelo intermédio de um sujeito transcendental do conhecimento, no qual cada membro da espécie participa. A religião agrupa por transcendência. Para sua operação em que põe o homem em presença de si, ao contrário, o ciberespaço lança mão de uma tecnologia real, imanente, ao alcance da mão.
Agora, o que é a totalidade? Trata-se, na minha linguagem, da unidade estabilizada do sentido de uma diversidade. Quer essa unidade ou identidade seja orgânica, dialética, ou complexa, antes do que simples ou mecânica, não muda em nada a questão; trata-se ainda de totalidade, isto é, de um fechamento semântico englobante. Ora, a cybercultura inventa outra maneira de fazer advir a presença virtual para si do humano somente impondo uma unidade do sentido. Essa é a principal tese defendida aqui.
À luz das categorias
que acabo de expor, podemos distinguir três grandes etapas da
história:
a das pequenas sociedades
fechadas, de cultura oral, que viviam uma totalidade sem
Universal;
a das sociedades
«civilizadas», imperiais, que usam a escrita, que fizeram
surgir um Universal totalizante e,
por fim, a da
cybercultura, que corresponde à mundialização concreta das
sociedades, que inventa um Universal sem totalidade.
Ressaltemos que os estágios dois e três não fazem desaparecer os que os antecedem, mas relativizam-nos ao acrescentar dimensões suplementares.
Numa primeira época, a humanidade é composta de uma multidão de totalidades culturais dinâmicas ou de «tradições», mentalmente fechadas sobre si, o que evidentemente não impede nem os encontros, nem as influências. «Os homens» por excelência são os membros da tribo. São raras as proposições das culturas arcaicas que supostamente concernem a todos os seres humanos sem exceção. Nem as leis (nenhum «direito humano»), nem os deuses (nenhuma religião universal), nem os conhecimentos (nenhum procedimento de experimentação ou raciocínio reprodutível em toda a parte), nem as técnicas (nenhuma rede, nem padrões mundiais) são universais por construção.
É verdade que o registro estava ausente. Mas a transmissão cíclica de geração para geração garantia a perenidade no tempo. As capacidades da memória humana limitavam, no entanto, o tamanho do tesouro cultural às lembranças e aos saberes de um grupo de idosos. Totalidades vivas, porém fechadas, sem Universal.
Numa segunda época, «civilizada», as condições de comunicação instauradas pela escrita levam à descoberta prática da universalidade. A escrita, a seguir o impresso, trazem uma possibilidade de extensão indefinida da memória social. A abertura universalista efetua-se paralelamente no tempo e no espaço. O Universal totalizante traduz a inflação dos sinais e a fixação do sentido, a conquista dos territórios e a sujeição dos homens. O primeiro Universal é imperial, estatal. Impõe-se sobre a diversidade das culturas. Tende a cavar uma camada do ser em toda a parte e sempre idêntica, pretensamente independente de nós (assim como o universo criado pela ciência) ou apegada a tal definição abstrata (os direitos humanos). Sim, nossa espécie existirá futuramente como tal. Encontra-se, comunga dentro de estranhos espaços virtuais: a revelação, o fim dos tempos, a razão, a ciência, o direito Do Estado às religiões do livro, das religiões às redes da tecnociência, a universalidade afirma-se e corporifica-se, porém, quase sempre pela totalização, pela extensão e pela manutenção de um sentido único.
Ora, a cybercultura, terceiro estágio da evolução, mantém a universalidade ao mesmo tempo em que dissolve a totalidade. Corresponde ao momento em que nossa espécie, com a planetarização econômica, com a densificação das redes de comunicação e transporte, tende a formar apenas uma comunidade mundial, mesmo que essa comunidade seja e como é! desigual e conflituosa. Única de seu gênero no reino animal, a humanidade reúne toda a sua espécie numa única sociedade. Mas, ao mesmo tempo e paradoxalmente, a unidade do sentido surge, talvez porque começa a realizar-se praticamente, pelo contato e pela interação efetiva. Noé está voltando feito multidão. Flotilhas espalhadas e dançantes de arcas que abrigam a precariedade de um sentido problemático, reflexos confusos de um tudo fugidio, evanescente, conectadas com o universo, as comunidades virtuais constroem e dissolvem constantemente suas micrototalidades dinâmicas, emergentes, submersas, que derivam entre as correntes cheias de turbilhões do novo dilúvio.
As tradições se expandiam na diacronia da história. Os intérpretes, operadores do tempo, transmissores das linhas de evolução, pontes entre o futuro e o passado, reatualizavam a memória, transmitiam e inventavam no mesmo movimento as idéias e as formas. As grandes tradições intelectuais ou religiosas construíram, com paciência, bibliotecas-hipertextos, às quais cada nova geração acrescentava seus nós e laços. Inteligências coletivas sedimentadas, a Igreja ou a universidade costuravam os séculos um com o outro. O Talmude gera uma profusão de comentários nos quais os sábios de ontem dialogam com os de anteontem.
Longe de desarticular o motivo da «tradição», a cybercultura inclina-o num ângulo de 45º, para arranjá-lo na ideal sincronia do ciberespaço. A cybercultura encarna a forma horizontal, simultânea, puramente espacial da transmissão. Só liga no tempo como acréscimo. Sua principal operação está em conectar no espaço, construir e estender os rizomas do sentido.
Eis o ciberespaço, o
pulular de suas comunidades, a ramificação entrelaçada de suas
obras, como se toda a memória dos homens se abrisse no instante:
um imenso ato de inteligência coletiva síncrona, convergindo
para o presente, raio silencioso, divergente, explodindo como uma
cabeleira de neurônios.
FONTE: http://portoweb.com.br/PierreLevy/ouniversalsem.html