O UNIVERSAL SEM TOTALIDADE 3

 

Os correios, o telefone, a imprensa, as editoras, as rádios, as incontáveis redes de televisão formam doravante a franja imperfeita, os apêndices parciais e diferentes, todos eles de um espaço de interconexão aberto, animado por comunicações transversais, caótico, turbilhonante, fractal, movido por processos magmáticos de inteligência coletiva. É verdade que jamais nos banhamos duas vezes no mesmo rio informacional, mas a densidade dos vínculos e a velocidade das circulações são tais que os atores da comunicações não sentem mais nenhuma grande dificuldade para partilhar o mesmo contexto, ainda que essa situação seja algo movediça e ocasionalmente confusa.  

Utopia minimal e motor primário do crescimento da Internet, a interconexão generalizada emerge como forma nova do Universal. Atenção! O processo de interconexão mundial em curso realiza mesmo uma forma do Universal, mas essa não é a mesma do que com a escrita estática. Aqui, o Universal deixa de articular-se no fechamento semântico chamado pela descontextualização. Muito pelo contrário. Esse Universal não totaliza mais o sentido, mas sim liga pelo contato, pela interação geral.  

O Universal não é o planetário  

Dir-se-á, talvez, que não se trata propriamente do Universal, mas do planetário, do fato geográfico bruto, da extensão das redes de transporte material e informacional, da constatação técnica do crescimento exponencial do ciberespaço. Pior ainda, sob o pretexto de universal, não se tratará apenas do puro e simples "global, o da "globalização" da economia ou dos mercados financeiros? Está certo que esse novo Universal contém uma alta dose de global e planetário, mas ele não se limita a isso. O «Universal por contato» ainda é universal, no sentido mais profundo, pois ele é indissociável da idéia de humanidade. Até os mais ferrenhos desprezadores do ciberespaço rendem homenagem a essa dimensão quando eles lamentam, com razão, que a maioria esteja excluída ou que a África ocupe tão pouco lugar nele. O que é que a reivindicação do "acesso para todos" revela? Mostra que a participação nesse espaço que lega cada ser humano com qualquer outro, que pode fazer as comunidades comunicarem-se entre si e consigo, que suprime os monopólios de difusão e autoriza cada um a emitir para quem estiver interessado ou implicado, esse reivindicação revela que a participação nesse espaço funda-se num direito e que sua construção se aparenta com uma espécie de imperativo moral.  

Em suma, a cybercultura dá forma a uma nova espécie de Universal: o Universal sem totalidade. E, repetimos, ainda se trata de Universal, acompanhado de todas as ressonâncias que se quiser com a filosofia das luzes, por ele manter uma profunda relação com a idéia de humanidade. O ciberespaço, com efeito, não gera uma cultura do Universal por estar de fato em toda a parte, mas sim porque sua forma ou idéia implica direito à totalidade dos seres humanos.  

Quanto mais universal, menos totalizável  

Por intermédio dos computadores e das redes, as pessoas mais diversas podem entrar em contato, apertar a mão no mundo inteiro. Antes do que se construir sobre a identidade do sentido, o novo universo prova-se por imersão. Estamos todos no mesmo banho, no mesmo dilúvio de comunicação. Ou seja, não é mais uma questão de fechamento semântico ou de totalização.  

Uma nova ecologia dos meios de comunicação está organizando-se em torno da extensão do ciberespaço. Posso agora enunciar seu paradoxo central: quanto mais universal (extenso, interconectado, interativo), menos totalizável. Cada conexão suplementar acrescenta mais heterogeneidade, novas fontes de informação, novas linhas de fuga, de maneira que o sentido global fica cada vez menos legível, cada vez mais difícil de circunscrever, de encerrar, de dominar. Esse Universal dá acesso a um gozo do mundial, à inteligência coletiva em ato da espécie. Faz-nos participar mais intensamente da humanidade viva, mas sem que isso seja contraditório, ao contrário, com a multiplicação das singularidades e a ascensão da desordem.  

De novo: quanto mais o Universal se concretizar ou se atualizar, menos totalizável fica. Existe a tentação de dizer que se trata, enfim, do verdadeiro Universal, pois ele não se confunde mais com uma dilatação de local, e, tampouco, com a exportação forçada dos produtos de uma determinada cultura. Anarquia? Desordem? Não. Tais palavras refletem apenas a nostalgia do fechamento. Aceitar perder uma certa forma de domínio, é dar-se uma chance de encontrar o real. O ciberespaço não está desordenado, mas exprime a diversidade do humano. Que seja necessário inventar os mapas e os instrumentos de navegação desse novo oceano, sobre isso cada um pode concordar. Não é necessário, porém, fixar, estruturar a priori ,engessar uma paisagem fluida e variada por natureza, uma vontade excessiva de domínio não prende o ciberespaço de maneira durável. As tentativas de fechamento tornam-se quase impossíveis ou por demais evidentemente abusivas.  

Por que inventar um «Universal sem totalidade», quando já dispomos do rico conceito de pós-modernidade? É que, precisamente, não se trata da mesma coisa. A filosofia pós-moderna descreveu bem a dispersão da totalização. A fábula do progresso linear e garantida não tem mais vigência, nem na arte, nem na política, nem em campo algum. Ao não haver mais »um» sentido da história, mas sim uma multidão de pequenas proposições que lutam pela sua legitimidade, como organizar a coerência dos eventos, em que tudo é «a vanguarda»? Quem é que está «na frente»? Quem é que é «progressista»? Em três palavras, e para retomar a feliz expressão de Lyotard, a pós-modernidade proclama o fim dos «grandes relatos» totalizantes. A multiplicidade e o emaranhamento radical das épocas, dos pontos de vista e das legitimidades, traço distintivo do pós-moderno, vê-se claramente acentuada e encorajada, aliás, na cybercultura. Mas a filosofia pós-moderna tem confundido o Universal e a totalização. Seu erro foi o de jogar o bebê do Universal junto com a água suja da totalidade.  

O que é o Universal? É a presença (virtual) para si da humanidade. Quanto à totalidade, podemos defini-la como o agrupamento estabilizado do sentido de uma pluralidade (discurso, situação, conjunto de eventos, etc.). Essa identidade global pode encerrar-se no horizonte de um processo complexo, resultar do desequilíbrio dinâmico da vida, emergir das oscilações e contradições do pensamento. Mas qualquer que seja a complexidade de suas modalidades, a totalidade ainda continua abaixo do horizonte do mesmo.  

Ora, a cybercultura mostra precisamente que existe outra maneira de instaurar a presença virtual para si da humanidade (o Universal) que não pela identidade do sentido (a totalidade).  

Estará a cybercultura em ruptura com os valores fundadores da modernidade européia?  

Em contraste com a idéia pós-moderna do declínio das idéias das luzes, afirmo que a cybercultura pode ser considerada como herdeira legítima (embora distante) do projeto progressista dos filósofos do século XVIII. Com efeito, ela valoriza a participação em comunidades de debate e argumentação. Na linha direta das morais da igualdade, ela incentiva uma maneira de reciprocidade essencial nas relações humanas. Desenvolveu-se a partir de uma prática assídua dos intercâmbios de informações e conhecimentos, que os filósofos das luzes consideravam como o principal motor do progresso. E, se alguma vez tivéssemos sido modernos (1), a cybercultura não seria pós-moderna, mas estaria realmente na continuidade dos ideais revolucionários e republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade. Só que, na cybercultura, tais "valores" encarnam-se em dispositivos técnicos concretos. Na era da mídia eletrônica, a igualdade se realiza em possibilidade para cada um emitir para todos; a liberdade se objetiva em softwares de codificação e em acesso transfronteiriço para múltiplas comunidades virtuais; a fraternidade, quanto a ela, se converte em interconexão mundial.  


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