O UNIVERSAL SEM TOTALIDADE 2

 

Assim como os textos científicos ou filosóficos que supostamente contêm suas próprias razões, seus próprios fundamentos e trazem consigo suas condições de interpretação, os grandes textos das religiões universalistas englobam por construção a fonte de sua autoridade. Com efeito, a origem da verdade religiosa é a revelação. Ora, a Tora, os Evangelhos, o Alcorão são a própria revelação ou o relato autêntico da revelação. O discurso não está mais no fio de uma tradição cuja autoridade vem do passado, dos ancestrais ou da evidência partilhada de uma cultura. Somente o texto (a revelação) fundamenta a verdade, fugindo, assim, de qualquer contexto condicionante. Graças ao regime de verdade que se apóia num texto-revelação, as religiões do livro libertam-se da dependência de um meio particular e tornam-se universais.  

Observemos, de passagem, que o «autor» (típico das culturas escritas) é, originalmente, a fonte da autoridade, enquanto o que o «intérprete» (figura central das tradições orais) faz é apenas atualizar ou modular uma autoridade que vem de outro lugar. Graças à escrita, os autores, demiúrgicos, inventam a autoposição do verdadeiro.  

No universal fundamentado pela escrita, o que deve manter-se inalterado pelas interpretações, traduções, translações, difusões, conservações, é o sentido. O significado da mensagem deve ser o mesmo aqui e acolá, hoje e outrora. Esse universal é indissociável de um alcance de fechamento semântico. Seu esforço de totalização luta contra a pluralidade aberta dos contextos atravessados pelas mensagens, contra a diversidade das comunidades que os fazem circular. Da invenção da escrita decorrem as exigências muito especiais da descontextualização dos discursos. Desde esse evento, o domínio englobante do significado, a pretensão do "tudo", a tentativa de instaurar o mesmo sentido (ou, para a ciência, a mesma exatidão) em cada lugar está, para nós, associado ao universal.  

Meios de comunicação de massa e totalidade  

Os meios de comunicação de massa (imprensa, rádio, cinema, televisão) seguem, ao menos em sua configuração clássica, a linha cultural do universal totalizante iniciada pela escrita. Dado que a mensagem mediática será lida, ouvida, vista por milhares ou milhões de pessoas mundo afora, é composta de maneira que encontre o «denominador comum» mental de seus destinatários. Seu alvo são os receptores, no mínimo, de sua capacidade interpretativa. Não cabe desenvolver aqui tudo quanto distingue os efeitos culturais da mídia eletrônica dos da prensa. Só queria ressaltar uma semelhança. Por circular num espaço desprovido de interação, a mensagem mediática não pode explorar o contexto particular que envolve o receptor, ignora sua singularidade, suas aderências sociais, sua microcultura, seu momento e sua situação especial. Tal dispositivo, ao mesmo tempo redutor e conquistador, é que fabrica o "público" indiferenciado, a "massa" dos meios de comunicação de massa. Universalizante por vocação, a mídia totaliza de maneira frouxa sobre o atrativo emocional e cognitivo mais baixo, para o «espetáculo» contemporâneo, ou de maneira muito mais violenta, sobre a propaganda do partido único, para os totalitarismos clássicos do século XX: fascismo, nazismo e estalinismo. A mídia eletrônica, por exemplo, o rádio ou a televisão, trazem uma segunda tendência, complementar da primeira. Paradoxalmente, a descontextualização que eu acabo de mencionar estabelece outro contexto, holístico, quase que tribal, porém numa escala maior do que nas sociedades orais. Interagindo com os outros meios de comunicação, a televisão traz à tona um plano emocional de existência que reúne os membros da sociedade numa espécie de macrocontexto flutuante, sem memória e de rápida evolução. Percebe-se isso mais especialmente nos fenômenos do "ao vivo" e em geral quando a «atualidade»  se torna quente. É preciso reconhecer a McLuhan o fato de ter sido o primeiro a descrever esse caráter das sociedades mediáticas. A principal diferença entre o contexto mediático e o contexto oral é que os telespectadores, embora emocionalmente implicados na esfera do espetáculo, jamais podem sê-lo praticamente. Por construção e no plano mediático de existência, jamais são atores.  

A verdadeira ruptura com a pragmática da comunicação estabelecida pela escrita não pode vir à luz com o rádio ou a televisão, pois esses instrumentos de difusão em massa não permitem nenhuma verdadeira reciprocidade, tampouco interações transversais entre os participantes. Em vez de emergir das interações vivas de uma ou mais comunidades, o contexto global instaurado pela mídia fica fora do alcance dos que consomem apenas sua recepção passiva, isolada.  

Complexidade dos modos de totalização  

Muitas formas culturais derivadas da escrita têm a universalidade por vocação; porém, cada uma totaliza com base num atrativo diferente: as religiões universais sobre o sentido, a filosofia (inclusive a filosofia política) sobre a razão, a ciência sobre a exatidão reprodutível (os fatos), a mídia sobre uma captação num espetáculo siderante batizado como "comunicação". Em todos os casos, a totalização opera-se sobre a identidade do significado. Cada uma à sua maneira, essas máquinas culturais procuram reproduzir, no plano de realidade que inventam, uma sorte de coincidência com eles mesmos dos coletivos que reúnem. O Universal? Uma espécie  de aqui e agora virtual da humanidade. Ora, embora desemboquem numa reunião por um aspecto de sua ação, tais máquinas de produzir o universal decompõem, por outro lado, uma multidão de micrototalidades contextuais: paganismos, opiniões, tradições, saberes empíricos, transmissões comunitárias e artesanais. Por sua vez, essas destruições de local são imperfeitas, ambíguas, pois por contragolpe os produtos das máquinas universais são fagocitados, relocalizados, misturados aos particularismos que eles gostariam de transcender. Embora o universal e a totalização (a totalização, isto é, o fechamento semântico, a unidade da razão, a redução do denominador comum, etc.) tenham sempre estado ligados, sua conjunção oculta fortes tensões, dolorosas contradições que talvez a nova ecologia da mídia polarizada pelo ciberespaço permita desvelar. Essa resolução, digamô-lo com força, não está em absoluto garantida, nem é automática. A ecologia das técnicas de comunicação propõe, os atores humanos dispõem. Eles são quem decide em última instância, deliberadamente ou na semi-inconsciência dos efeitos coletivos, do universal cultural que juntos estão construindo. E, para isso, devem ter percebido a possibilidade de novas escolhas.  

A cybercultura ou o universal sem totalidade  

Com efeito, o maior evento cultural anunciado pela emergência do ciberespaço é o desatrelamento entre esses dois operadores sociais ou máquinas abstratas (muito mais do que conceitos!) que a universalidade e a totalização são. A causa é simples: o ciberespaço dissolve a pragmática de comunicação que, desde a invenção da escrita, havia conjuntado o universal e a totalidade. Com efeito, leva-nos de volta a essa situação anterior a escrita — porém, numa outra escala e em outra órbita — na medida em que a interconexão e o dinamismo em tempo real das memórias em linha faz os parceiros da comunicação partilharem novamente o mesmo contexto, o mesmo imenso hipertexto vivo. Qualquer que seja a mensagem abordada, ela está conectada com outras mensagens, com comentários, com gloses em constante evolução, com pessoas que se interessam por elas, com os fóruns onde são debatidas, aqui e agora. Qualquer texto é o fragmento que se ignora talvez do hipertexto móvel que o envelopa, que o conecta com outros textos e serve como mediador ou meio para uma comunicação recíproca, interativa, ininterrupta. Sob o regime clássico da escrita, o leitor está condenado a reatualizar dispendiosamente o contexto, ou então a aceitar o trabalho das Igrejas, das instituições ou Escolas, obstinadas a ressuscitar e fechar o sentido. Hoje, porém, tecnicamente e devido à iminente colocação em rede de todas as máquinas do planeta, quase não existem mais mensagens "fora de contexto", separadas de uma comunidade ativa. Virtualmente, todas as mensagens mergulham num banho comunicacional borbulhante de vida, incluindo as próprias pessoas, e do qual o ciberespaço vai progressivamente sendo o coração. 


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