PLISSÊ FRACTAL

 

Cada máquina possui uma qualidade de efecto diferente, uma consistência e um horizonte fabulatório particular, projeta um universo singular. E no entanto ela entra em composição, ela se associa com outras máquinas. Mas de que modo? Querer integrar, unificar violentamente as máquinas plurais sob um só projeto, um só princípio de consistência, resultaria talvez em matá-las e certamente diminuir sua riqueza ontológica. Uma unificação “real” seria destruidora, uma unificação conceitual empobreceria a compreensão e a inteligência do fenômeno considerado. Portanto, é necessário respeitar a pluralidade maquínica, uma pluralidade sem elementos (por baixo) nem síntese ou totalização (por cima). Mas a pluralidade, justamente porque ela não é composição de elementos, não pode ser sinônimo de separação. Há certamente uma composição ou uma correspondência das máquinas. Esta articulação paradoxal deverá ser analisada com infinita delicadeza e precaução em cada caso particular. Levantamos a hipótese de que não existe nenhum princípio geral de composição, mas que, pelo contrário, cada agenciamento maquínico inventa localmente seu próprio modo de comunicação, de correspondência, de compossibilidade ou de entrelaçamento da autopoiése (pólo identitário) e da heteropoiése mútua (pólo associativo). 

 Distingamos cinco dimensões da máquina: 

 1) Uma máquina é diretamente (como no caso do organismo) ou indiretamente (na maior parte dos casos) autopoiética (Varela), ou auto-realizadora, (como se diz de uma profecia auto-realizadora), isto é, ela contribui para fazer durar o acontecimento da dobra que a faz ser. 

 2) Uma máquina é exopoiética, ela contribui para produzir um mundo, universos de significações. 

 3) Uma máquina é heteropoiética, ou fabricada e mantida por forças do fora, pois ela se constitui de uma dobra. O exterior já está aí presente sempre, ao mesmo tempo geneticamente e atualmente. 

 4) Uma máquina é não somente constituída pelo exterior (é a redobra da dobra). A máquina se alimenta, recebe mensagens, está atravessada por fluxos diversos. Em suma, a máquina é desejante. A este respeito todos os agenciamentos, todas as conexões são possíveis de uma máquina à outra. 

 5) Uma máquina é interfaciante e interfaciada. Ela traduz, trái, desdobra e redobra para uma máquina jusante os fluxos produzidos por uma máquina montante. Ela é ao mesmo tempo composta por máquinas tradutoras que a dividem, multiplicam e heterogenizam. A interface é a dimensão de “política estrangeira” da máquina, o que pode fazé-la entrar em novas redes, fazê-las traduzir novos fluxos. 

 Toda máquina possui as cinco dimensões, mas em graus e proporções variáveis. Repitâmo-lo, as máquinas nunca são puramente físicas, biológicas, sociais, técnicas, psíquicas, semióticas, etc. Cosmópolis atravessa sempre as dobras transitórias que escavam estas distinções. Certas máquinas estratificantes ou territorializantes - elas próprias perfeitamente heterogêneas - trabalham precisamente para endurecer as dobras estráticas. São redes de máquinas cosmopolitas que produzem os seres, os modos de ser, o próprio Ser de acordo com uma modulação infinita de graus e qualidades. 

 A produtividade ontológica se auto-entretém, pois máquinas interfaces, parasitas, vêm gerar os hiatos, os abismos ou as dobras demasiado profundas que separam as subjetividades-mundos, suas temporalidades, seus espaços e seus signos. Uma máquina mantém presente (traindo-o ao mesmo tempo) o acontecimento da dobra do qual ela resulta. Ela inscreve o clinâmen inicial na mecanosfera, faz com que ele dure, retorne e, ao fazê-lo, ela se instaura como fonte de outras dobras.  

 Pensando como mecanosfera, todo o mundo empírico retorna sobre o transcendental, torna-se fonte multiforme e plurívoca de universo de existência e de significação. 

 Os três andares do transcendental 

 Partimos de uma concepção clássica do transcendental: a interioridade do sujeito, ou o objeto, ou a experiência, etc. Pouco a pouco, é a dobra do ser e do ente (ver Heidegger, Essais et conférences, Gallimard, p. 279-310) ou do transcendental e do empírico que se impôs à nossa meditação. Devemos agora remontar à própria possibilidade das dobras (e não somente da dobra heideggeriana ser/ente). Distingamos para este fim três níveis de transcendental. 

 O transcendental de nível zero: Há inicialmente o “isso”, o inconsciente total intotalizável, o plano de consistência. As entidades que povoam esse arqui-lugar ou esse proto-tempo estão em composição e decomposição perpétuas e simultâneas. Elas se deslocam a uma velocidade absoluta e estão ao mesmo tempo infinitamente próximas e infinitamente distanciadas umas das outras. Evidentemente será preciso ter cuidado para distinguir o caos transcendental da desordem no sentido habitual ou termodinâmico do termo... antes de meditar a dobra que relaciona uns com outros estes sentidos. (Ver, para uma exposição mais detalhada sobre o caos, as Cartographies schizoanalytiques de Félix Guattari). O caos transcendental é a condição de possibilidade da dobra como acontecimento. 

 O transcendental de nível um: O acontecimento da dobra é aquilo pelo qual algo se diferencia. A dobra é trabalho antes de qualquer objeto ou qualquer fluxo trabalhado, processo antes de qualquer estado, incoativo absoluto. A dobra é uma espécie de inflexão do plano de consistência, um clinâmen. 

 O transcendental de nível dois: São os complexos maquínicos dobrados/dobrantes que produzem os mundos empíricos. Sob o ser e o nada, o ser e os entes, os universos biológicos, sociais; seus modos de enunciação e suas significações trabalham agenciamentos trans-estráticos, máquinas cosmopolitas heterogêneas que se entre-traduzem, se entre-produzem e se entre-destroem perpetuamente. O transcendental de nível dois é o coletivo em metamorfose permanente do todos os “aquilo através de que”. A organização “hipertextual” (ver Pierre Lévy, Les technologies de l’inteligence, Points-Seuil, 1993 (2)) da rede maquínica proíbe qualquer redução a uma infraestrutura, qualquer rebatimento do trans-mundo sobre uma ordem particular de discurso. Eis aqui a mecanosfera, a mega-máquina mundo-mundo, o anel de Moebius cósmico onde empírico e transcendental trocam perpetuamente seus lugares ao longo de uma dobra única e infinitamente complicada. 

 Direções de pesquisas: ética e semiótica 

 A ontologia do plissê fractal poderia prolongar-se em duas direções. Primeiramente para uma filosofia da significação. Pois todo signo é dobra, a forma mais simples da dobra significante sendo o desdobramento significado/significante, que se pode complicar, segundo Hjelmslev, em expressão e conteúdo, cada um destes dois termos se subdividindo ainda em forma e matéria. Mas o signo pode se dobrar de mil modos (apenas Peirce recenseou mais de sessenta tipos de signos). É o mesmo que dizer, com Félix Guattari, que existem tantas semióticas (estilos de dobras significantes) quantos agenciamentos de enunciação. Músicas, cidades, rituais, tatuagens, signos plásticos ou cinematográficos, imagens infinitamente difratadas da rede mediática, máquinas de escrita em abismo dos softwares, imaginários pluri-semióticos em ato, universos existenciais... a dobra simples do significante e do significado só aparece, então, como um caso-limite bastante pobre. 

 Só evocamos aqui, por enquanto, a estática do signo, sua estrutura. Qual é o trabalho da significação como ato? Como pensar o redobramento/desdobramento de afectos, de imagens e de representações produzido pelo acontecimento do signo no grande drapê fractal da memória e, mais além, ao longo das alternâncias de dentro e de fora interfaciadas da mecanosfera? Quais são as máquinas heterogêneas que trabalham para manter o estrato semiótico como tal e através de que o signo se relaciona sempre já com o a-significante, se confunde com os processos cosmopolitas? 

 Enfim, a ontologia da dobra desemboca numa ética, ou numa política. Se o empírico volta ao transcendental, os cabalistas tinham razão: é no mundo de baixo que se decide em último lugar a sorte do mundo de cima. Não somos somente destinados pelo desvelamento historial, como o pretendia Heidegger, somos também responsáveis (no sentido mais forte do termo) por ele. Agindo efetiva ou empiricamente, fazemos emergir um horizonte de sentido historial, um imaginário instituinte, um universo existencial ou incorporal. Temos certamente que responder pelas conseqüências materiais de nossos atos, mas também pelas matrizes de significações que ajudamos a transmitir, consolidar, edificar e destruir. Não entendamos esta relação essencial da ética com a significação num sentido estreito. Não se trata unicamente de lembrar o papel primordial dos escritores, dos artistas, dos homens de “comunicação” e, em geral, de todos os que trabalham explicitamente no campo semiótico. Os atos “puramente práticos”, técnicos, administrativos, econômicos e outros contribuem tanto quanto os atos de discurso para a construção dos agenciamentos coletivos de enunciação, para a produção das qualidades de ser. A ética e a política não concernem apenas às relações dos humanos entre eles, à relação com o “próximo”, mas igualmente à relação com o mundo. Que mundo ajudamos a inventar e a fazer existir? 

 Esta interrogação fundamental pode desdobrar-se em três questões ético-políticas particulares. 

 Em primeiro lugar, enquanto cidadãos do mundo total, que é feito de nossa responsabilidade para com a Terra, seus oceanos, suas florestas, suas massas humanas e seus climas? Em que planeta queremos viver? 

 Em segundo lugar, enquanto fontes de mundos particulares, de que modo agimos para com os outros mundos, produtos de formas de vida, de cultura, de significações e de subjetividade diferentes? Que tipos de relações estabelecemos com modos de ser que não são os nossos (mas com os quais estamos, no entanto, sempre em relação pelas redobras de nossa participação com a mecanosfera)? 

 Em terceiro lugar, que atitude fundamental adotamos para com o trans-mundo? Mantemos livre a possibilidade de emergência de novos agenciamentos de enunciação? Favorecemos ou, ao contrário, restringimos a produtividade ontológica? Mantemos as dobras em sua essência de acontecimento, ou trabalhamos para endurecê-las em oposições, estratos, substâncias? Escolhemos as individuações sempre capazes de receber novas dobras ou as individualizações rígidas e fechadas?  

 A ética se relaciona com o mundo sob estas três faces: a Terra, os outros mundos (o próximo é apenas um caso particular de outro mundo), e o trans-mundo das dobras, dos agenciamentos de enunciação e dos processos cosmopolitas. Três figuras do anel imanência-transcendência que não cessa de destruir, de metamorfosear e de produzir o ser em sua infinita diversidade.


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