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As leis do inerte e o milagre do vivo em Prigogine e Stengers
De todos os contemporâneos exploradores de dobra, Ilya Prigogine e Isabelle Stengers estão indubitavelmente entre os mais notáveis. Em suas duas dobras, Entre le temps et léternité e La nouvelle alliance, eles tentaram por abaixo a cortina de ferro ontológica que uma certa tradição filosófica havia construído entre os seres (o em si) e as coisas (o para si). Apoiando-se sobre os últimos desenvolvimentos da ciência contemporânea, a filósofa e o prêmio Nobel renovaram profundamente a filosofia da natureza. Lendo-os, redescobrimos na physis a irreversibilidade do devir e o carácter instituinte do acontecimento, que acreditávamos reservados aos universos do homem (desde que se pensa a História) e da vida (desde a descoberta da evolução biológica). Os processos distantes do equilíbrio e os sistemas dinâmicos caóticos conectam, por uma dobra que permaneceu invisível por muito tempo, a necessidade estática do mecanismo e o acaso miraculoso da auto-organização viva. A partir do momento em que o determinismo da matéria e a inventividade finalizada do vivo não são mais do que casos limites de um continuum infinitamente complexo, redobrado e semeado de singularidades, a vida e o universo físico, o sinal e a significação deixam de se opor. Não somente eles se relacionam um com o outro em sua diferença, mas passam também um no outro.
O conceito de sistema dinâmico caótico é um dos que permitem pensar a voluta gigante unindo a vida organizada às necessidades da physis. Para ilustrar e modelizar este conceito, Prigogine e Stengers escolheram especialmente a transformação do padeiro, isto é, o estiramento e a redobra indefinidamente reiterada de uma superfície representando o espaço das fases de um sistema. A operação matemática da transformação do padeiro é uma espécie de análogo formal do trabalho que um verdadeiro padeiro aplica a uma massa de pão (ver La nouvelle alliance, p. 329-43 e 401-407, assim como Entre le temps et léternité, p.96-107). E talvez seja a própria imagem do tempo antes que ele escoe, antes que ele seja apreendido num sistema de coordenadas: esse movimento sem fim de estiramento, de dobra e de redobra de uma superfície abstrata.
A mecanosfera
Dobras não cessam de involuir e de se recurvar uma nas outras, ao passo que outras se desdobram. Acolhido na dobra individuante, o sinal, ou a ondulação das coisas, torna-se significação. Os seres se individuam em torno das dobras das coisas, da ondulação das paisagens, das curvas dos corpos, dos arabescos desenhados por alguma linha melódica, da curvatura dos acontecimentos... Entidades se individuam ou se desindividuam para que isso se preste a outras dobras, para que isso se reindividue de outra maneira. Quer se trate de um objeto cósmico, de uma espécie, de um biotopos(1), de uma cultura, de um regime político, de um momento, de uma atmosfera ou de um sujeito, sob qualquer processo de individuação uma máquina trabalha. (ver Lhétérogénèse machinique, Félix Guattari, Chimères nº. 11, 1991, retomado em Chaosmose, Galilée, 1992).
A análise redutora acredita ter encontrado um fundamento da explicação, um último solo causal, que se confunde freqüentemente com este ou aquele estrato (o biológico, o psíquico, o social, o técnico, etc.). Ora, a análise preocupada com a singularidade dos seres, em vez de perder tudo (exceto a certeza), numa regressão a um fundamento, qualquer que seja ele (ver o pensiere debole enaltecido por Gianni Vattimo), deve ao contrário tentar fazer aparecer a consistência própria, a dimensão de autopoiése (Varela), a qualidade ontológica particular da entidade, do fenômeno ou do acontecimento considerado. É para escapar à redução que precisamos do conceito de máquina.
Uma máquina organiza a topologia de fluxos diversos, desenha os meandros de circuitos rizomáticos. Ela é uma espécie de atrator que recurva o mundo em volta dela. Enquanto dobra dobrando ativamente outras dobras, a máquina está no cerne do retorno do empírico sobre o transcendental. Uma máquina pode ser considerada numa primeira aproximação como pertencendo a tal estrato físico, biológico, social, técnico, semiótico, psíquico, etc., mas ela é mais geralmente trans-estrática, heterogênea e cosmopolita. As máquinas são aquilo através de que há estratos.
Não somente uma máquina produz algo num mundo, mas ela contribui para produzir, para reproduzir e para transformar o mundo no qual ela funciona. Uma máquina é um agenciamento agenciante, ela tende a se voltar, a retornar sobre suas próprias condições de existência para re-produzi-las. A composição das máquinas não é nem conjuntista, nem mecânica, nem sistêmica. Isso é impossível pois, na perspectiva neovitalista que é a nossa aqui, cada máquina é animada por uma subjetividade ou por uma proto-subjetividade elementar. Não nos representaremos, portanto, máquinas (biológicas, sociais, técnicas, etc) objetivas ou reais, e vários pontos de vistas subjetivos sobre esta realidade. Na verdade, uma máquina puramente objetiva que não fosse movida por nenhum desejo, nenhum projeto, que não fosse infiltrada, animada, alimentada de subjetividade, não se sustentaria nem um segundo, essa carcaça vazia e seca se pulverizaria imediatamente. A subjetividade não pode, portanto, ser restringida ao ponto de vista ou à representação, ela é instituinte e realizante. Por outro lado, a subjetividade não toma forma e só se sustenta com agenciamentos maquínicos diversos, entre os quais, na escala humana, os agenciamentos biológicos, simbólicos, mediáticos, sócio-técnicos ocupam um lugar capital.
As concepções habituais da composição só respondem na verdade aos problemas da objetividade pura, cujos modelos sistêmicos, informáticos e cibernéticos são apenas uma variante elaborada. Mas as máquinas não são nem puramente objetivas nem puramente subjetivas. A noção de elemento ou de indivíduo também não lhes convém mais, nem a de coletivo, uma vez que a coleção supõe a elementaridade e faz sistema com ela. Como pensar então a composição das máquinas?