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Primeira abordagem da dobra
Com efeito, é sempre o mundo, sua multiplicidade indefinida, sua realidade, sua materialidade, sua topologia singular, as contingências de seu devir, Cosmópolis povoada de coletivos heterogêneos ao infinito e em todas as escalas de descrição é, finalmente, o próprio mundo que se descobre, cada vez, acima do complexo vital de significações que o faz ser tal mundo para nós.
Pelas metáforas e imagens recebidas, pelas significações culturais a nós transmitidas (implicando em suas dobras fragmentos holográficos de natureza), pelo inconsciente maquínico conectado ao fora, pelas técnicas materiais, as escrituras e as línguas sob a dependência das quais pensamos e produzimos nossas mensagens, tudo aquilo através do que experimentamos e vivemos o mundo é precisamente o próprio mundo, a começar por nosso corpo de sapiência.
Mais do que grosseiramente adaptado ao seu nicho-universo, o organismo vivo é certamente seu produtor; nisso é preciso seguir Varela. Mas devemos reconhecer igualmente que o mundo exterior, ou se quisermos, o meio, já está também sempre incluído no organismo cognoscente que produz. No vivo, o mundo se redobrou localmente em máquina autopoiética e exopoiética, produtora de si e de seu fora. Acima do mundo empírico experimentado por nós, o mundo transcendental que evocamos aqui não é certamente redutível a algum estrato físico, ou biológico, ou social, ou cognitivo, ou qualquer outro. Tampouco é a soma ordenada ou bem articulada dos estratos. Trata-se do mundo como reserva infinita, trans-mundo, sem hierarquia de complexidade, sempre e por toda parte diferente e complicado: Cosmópolis.
Corpos, culturas, artifícios, linguagens, significações, narrações... o empírico torna-se transcendental e o transcendental faz advir um mundo empírico. Isso se dobra e se redobra em transcendental e empírico. A dobra é o acontecimento, a bifurcação que faz ser. Cada dobra, ação-dobra ou paixão-dobra, é o surgimento de uma singularidade, o começo de um mundo. A proliferação ontológica é irredutível a uma ou outra camada particular dos estratos; igualmente irredutível a qualquer dobra-mestra como aquela do ser e dos entes, da infraestrutura e da superestrutura, do determinante x e do determinado y. O mundo total e intotalizável, o trans-mundo cosmopolita, diferenciado, diferenciante e múltiplo é, ao contrário, infinitamente redobrado, ele fervilha de singularidades nas singularidades, de dobras nas dobras. As oposições binárias maciças ou molares como a alma e o corpo, o sujeito e o objeto, o indivíduo e a sociedade, a natureza e a cultura, o homem e a técnica, o inerte e o vivo, o sagrado e o profano, e até a oposição de que partimos entre transcendental e empírico, todas essas divisões são maneiras de dobrar, resultam de dobras-acontecimentos singulares do mesmo plano de consistência (Deleuze e Guattari). Isso poderia ter se dobrado de outra maneira. E como a dobra emerge num infinitamente diversificado mas único, sempre se pode remontar ao acontecimento da dobra, seguir seu movimento e sua curvatura, desenhar seu drapê, passar continuamente de um lado para o outro.
A alma e o corpo para Gilbert Simondon
De sorte que, como o demonstrou Gilbert Simondon, não há substâncias, mas processos de individuação, não há sujeitos, mas processos de subjetivação. A subjetivação como ação ou processo continuado constitui um dentro, que não é outro senão a dobra do fora (Deleuze). Os dualismos achatam e unificam violentamente o que eles distinguem, impedindo, assim, de localizar as dobras e as curvaturas pelas quais passam as regiões do ser, uma na outra. Descartes não apenas separou a alma do corpo; ele criou também, no próprio interior da alma, uma homogeneidade e uma unidade que proíbe a concepção de um gradiente contínuo (sublinho, P. L.) de distanciamento em relação ao eu atual, reunindo as zonas as mais excentradas, no limite da memória e da imaginação, a realidade somática. (Gilbert Simondon, Lindividuation psychique et collective, p. 167)
A alma e o corpo, apreendidas como multiplicidades diferenciadas, comunicam-se por suas zonas de sombra. A consciência livre, racional e voluntária, de um lado, o mecanismo físico-químico dos órgãos, de outro, se juntam pelas sensação, pelo afeto, toda a obscuridade psicossomática do desejo, da sexualidade e do sono. O maquinal, o reflexo, o herdado do psiquismo, toda a divisão e a exterioridade do espírito a si mesmo o redobram para o somático, fazem-no tornar-se corpo.
A união psicossomática só se torna um problema se tentarmos conectar as extremidades da dobra, que são apenas dois casos limites: de um lado, a consciência clara e racional; do outro, o corpo-matéria ou o cadáver auto-móvel. Mas a alma e o corpo sempre já se comunicam pela dobra que os refere um ao outro, pelas multiplicidades negras da curvatura, que formam a maior parte do sujeito.
O esforço para seguir a dobra, esboçado aqui sobre o caso da alma e do corpo, deveria ser levado a todas as oposições molares. A cada vez, no lugar de entidades homogêneas e bem recortadas, descobriríamos um plissê fractal (Mandelbrot), uma infinita diferenciação do ser segundo dobras, passando continuamente umas nas outras.
A ciência e a sociedade em Bruno Latour
O que Gilbert Simondon assinalou sobre as relações da alma e do corpo, Bruno Latour mostrou no caso da ciência e da sociedade. O autor de La science en Action mergulhou a ciência e a técnica no grande coletivo heterogêneo dos homens e das coisas. Mas seria um erro acreditar que ele negou toda especificidade à tecnociência, uma vez que ele mostra as forças díspares que a compõem.
A ciência e a técnica emergem de uma mega-rede heterogênea, elas contribuem, em contrapartida, para atá-la, curvá-la de outra maneira. Ciências e técnicas resultam de uma dobra do coletivo cosmopolita, que se redobra em ciência das coisas, de um lado, e em sociedade dos homens, de outro.
Há certamente uma identidade (múltipla e variável) da ciência, um estilo de dobra, um regime de enunciação que a singulariza. Mas um pensador rigoroso não pode se atribuir a particularidade produzida por um acontecimento (por mais continuo que seja) sem ter percorrido previamente a dobra que a efetua. Ele não pode atribuir a essência antes do processo. Antes de qualquer especificidade do conhecimento científico e da eficácia técnica há, primeiramente, uma maneira de dobrar entre a verdade das coisas em si e o conflito hermenêutico das subjetividades. Esse tipo de divisão se redobra sempre novamente, no próprio seio da atividade científica, e poderia sempre se dobrar de outro modo ou em outro lugar. Uma tal proposta científica teria se situado na face social ou demasiado humano da divisão se a dobra tivesse passado mais longe. Como para a alma e o corpo, o trabalho que consiste em reencontrar e desenhar a dobra não pode se realizar sem dissolver a unidade e a homogeneidade das regiões que ele distingue. Apesar de todas as analogias possíveis, a dobra que singulariza a ciência não é idêntica, por exemplo, àquelas que fazem sobreviver a justiça, a beleza ou a santidade.