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heraclitus @ philopresoc.éfeso.gr
Subject:
Labirinto negro e Labirinto branco
From: levy @
neuroplab.unige.ch
Date: 18 dec
1994
Obrigado pela tua
resposta. Para falar francamente eu esperava um pouco
por tua reação cética. Tu me reprovas por não levar em
conta a má conduta dos homens, sua vontade de dominar, seus
eternos conflitos...Tu me dizeres que...
"Polémos (a
guerra) é pai e rei de tudo" (fragmento 53)
Não acredito,
entretanto, não ser fiel ao espírito de seu ensinamento. Com o
projeto da inteligência coletiva, alguns amigos e eu perseguimos
o empreendimento da emancipação da filosofia das luzes, da qual
tu és indiretamente um dos principais inspiradores. Não creio
que nós sejamos somente dois sonhadores. Nós sabemos
perfeitamente que não se pode manter a ficção de um progresso
linear, automático, garantido, no qual, de certo, tu mesmo não
acreditaste jamais. Neste fim de século XX, existe como que um
extraordinário descrédito em relação à modernidade. O
arcaico, o bárbaro de que me falas no teu fragmento 107,
nós o subestimamos aqui, também. Eles estão prestes a
ressurgir ainda mais poderosos, ainda mais arcaicos do que jamais
estiveram. Tudo coexiste: a mundialização (que faz de agora em
diante, de cada guerra, uma guerra civil) com os fanatismos
nacionais; as máfias triunfantes com os refinamentos da
bioética; o continente cultural transversal de juventude urbana,
suas insígnias e suas músicas; com o trabalho das crianças, a
fome e a miséria junto às mega-máquinas mundiais de produção
de sonhos das indústrias do divertimento interativo; as
multinacionais de alta tecnologia com a raridade da água; o
cyberspace com o analfabetismo... O tempo não é linear, ele é
múltiplo, em espiral, em turbilhões. Talvez não sejamos
nós pós-modernos, talvez não vivamos nós após a história,
mas antes dela, enquanto todas
as durações estejam ainda misturadas, momento
fabuloso, fonte de uma história por acontecer, que não começou
ainda a escoar. Nós estaríamos vivendo no "tempo das
origens", no arco mesmo, ao interior do "tempo
místico", na grande época das metamorfoses e dos
animais que falam. Ritmos, espaços, identidades
possíveis, sendo ainda marcas sobre os dados de marfim sacudidos
pelo tempo. Não mais o Cronos, o horrível deus que come
seus filhos, o castrador de seu pai, o Deus da sucessão
linear, mas o tempo dos tempos, a eternidade, a inocência.
"O tempo é uma
criança que joga dados", me escreveste tu (fragmento 52).
Que humanidade
sairá daí? Um mundo de guerra civil planetária surge sob
nossos olhos, dominado pelas redes do crime e as elites
"high-tech", condenando a maioria dos humanos a uma
miséria sem esperança. Com o projeto da inteligência coletiva,
nós queremos traçar uma outra via.
De novo, é isto
possível? Podemos escapar à luta pelo poder, aos
empreendimentos de dominações, à guerra? Polémos, não é ele
pai e rei de tudo? Tua sentença, Heráclito o Grego, eu a recuso
e interponho apelo diante do juiz dos infernos.
Muitos séculos
antes de se apagar, na Jônia e na Ática, a Grécia luminosa das
cidades, o antigo mundo helênico era dominado pela civilização
nicena. Na Ilíada, é o rei de Micenas, Agamenon, que leva a
expedição contra Tróia. O universo anterior, no momento
em que me encontrei diante das ruínas da antiga fortaleza
restaurada pelos arqueólogos, eu descobri muralhas de uma
espessura de muitos metros, feita de blocos enormes,
ciclópicos. Nesta civilização guerreira todo o
esforço dos homens, toda a acumulação material servia para
separar o interior do exterior.
Muito diferente da
fortaleza de micenas - e bem anterior - o palácio de Cnossos foi
durante séculos o principal centro de distribuição da
civilização minóica. O palácio cretense é
desprovido de fortificações. A sua cultura pacífica
empregou seus esforços na complexidade da arquitetura, na
decoração das salas, na beleza e engenhosidade do agenciamento
interior (esgotos, rede de água potável, etc). Toda
energia investida em Micenas, na massa de paredões foi empregada
em Cnossos para proliferar todo um luxo de detalhes
arquitetônicos: escadas, cortes, colunas, estátuas, andares,
terraços, antesalas, grandes salas de banquetes, pequenas peças
secretas, quartos de tesouros, cantos, becos... O palácio de
Cnossos é infinitamente complicado, mas aberto sob o céu e o
sol, por seus cursos e poços de luz, ele se abre para o
mundo e a cidade por suas portas e janelas. Ele se conecta
por estradas pavimentadas aos outros palácios de grandes cidades
cretenses. Porque eles não viviam como vocês, os gregos, numa
civilização polêmica, porque eles orientaram seu espírito
para outros problemas além da defesa, do ataque, as relações
de força e a dominação. Ao mesmo tempo que se abriam pelas
artes e o comércio para outras sociedades, dobraram e
redobraram um mundo sobre si mesmo, fazendo raiar a fabulosa
riqueza estética que precede e condiciona talvez o "milagre
grego".
Porque eles não
erigiram muralhas, os habitantes de Minos inventaram o labirinto,
quer dizer, a complexificação cultural, inteligência coletiva
projetada sobre o espaço arquitetural.
Quem é então o
Minotauro? É a fera atemorizante que devorava os jovens
atenienses no fundo de seu antro obscuro? Mas esta é a tua
versão do Minotauro - a dos gregos. Mas vocês, os gregos
polêmicos, filhos de Micenas e leitores da Ilíada, podem
compreender Cnossos, o enigma de uma civilização
irênica? Para mim o Minotauro, o homem-touro, não é senão o
acróbata de Minos, a quem eu vi executar sobre o animal sagrado,
saltos rituais perigosos. O Minotauro, o híbrido homem-touro,
surgiu diante de meus olhos, no centro do labirinto. No
pátio central do palácio de Cnossos, sobre a praça ensolarada
de um largo poço de luz, um homem jovem, ágil, gracioso, leve,
dançava em pleno ar sobre os chifres do animal.
Não te desgostes,
os habitantes de Minos não seriam vencidos na guerra. Sua
cultura seria afundada após uma série de catástrofes naturais
e das dispersões desencadeadas longe da ilha. Não se
encontra nenhum cadáver nos escombros do palácio
incendiado. Os gregos não se implantaram em Creta
senão após o declínio de sua civilização original.
Teseu, matando o
Minotauro, são os Micenos ocultando a civilização de Minos,
uma civilização artística, técnica, mas sem armas e sem
escravidão. Vocês os gregos polêmicos, descobriram a
Creta irênica. Sob o conflito, a paz. Vocês submeteram
Minos, profundamente escondido no lugar mais baixo, pois
vocês fizeram dele o juiz dos infernos. E sob o disfarce
transparente de Zeus, é bem o Touro de Minos que leva a Europa.
Eu segui teus
ensinamentos, Heráclito, e eu sei o que te devo. Mas nós
devemos agora aprender a nos liberar do pensamento grego. O
projeto de inteligência coletiva supõe o abandono da
perspectiva do poder, inclusive e principalmente, no espaço do
conhecimento. Este projeto quer abrir o vazio central, o poço de
claridade, que permite o jogo com a alteridade, a quimerização
e a complexidade labiríntica. Ora, o palácio de luz,
labirinto branco, traço arquitetônico de uma alegria de viver,
de uma beleza, de uma leveza soberana, torna-se aos olhos
da polêmica, que não sabe senão se reconhecer, por toda a
parte, o labirinto negro, a armadilha mortal abrigando um monstro
comedor de gente. A lenda do labirinto manifesta a
incapacidade de encontrar a saída pacífica, quanto ao
horizonte do opaco futuro planetário, a cultura do poder e
da paz parece indecifrável. O linear B, escrita do micenos
em Creta, foi bem decodificada por nossos sábios. Mas não
se encontrou até hoje a chave do linear A, grafia dos habitantes
de Minos antes da conquista micena. O enigma da paz
persiste ainda selado. Decifremos então o linear A, ou
antes, inventemos a ideografia dinâmica, a escrita do
futuro, a supralinguagem dos coletivos inteligentes.
Em lugar se tornar mais espessas as fortalezas do
poder, refinemos a arquitetura do cyberspace, o último
labirinto. Sobre cada circuito integrado, sobre cada
polegada eletrônica - vê-se e não se pode lê-lo - o algarismo
secreto, o emblema complicado da inteligência
coletiva, mensagem irênica dispersada à todos os
ventos.
Fonte: http://portoweb.com.br/PierreLevy/email.html