Email From Heraclitus and Replay

 

Do lugar de onde escrevo, talvez seja necessário exaltar a eternidade e a unidade do Logos (do discurso coerente, da ciência, da razão, da proporção...). Francamente, é preciso te dizer que, onde resido, muitas críticas foram emitidas sobre o valor de um tal Logos soberano e unificador. Ele tem sido julgado pelo seu uso. Alguns, onde estou, pensam mesmo que seria, talvez, tempo de experimentar outra coisa. Sem querer jogar fora toda a herança, nós tentamos imaginar uma espécie de pós-logos que propus chamar de "supralíngua" por razões de eufonia. 
 A "supralíngua" seria para o Logos o que a linguagme humana é para a linguagem das abelhas. Qual seria o sistema de signos, a gramática inescutada que corresponderia ao hipercórtex numérico, à comunicação todos-todos, aos mundos virtuais de signficiação, partilhados, à inteligência coletiva? 
 A multimídia interativa com suporte digital coloca explicitamente a questão do fim do logocentrismo, a questão das destituição de uma certa supremacia do discurso sobre os outros modos de comunicação. É possivel que a linguagem humana apareça simultâneamente sob muitas formas: oral, gestual, musical, icônica, plástica - cada expressão singular ativando tal ou qual zona de um "continuum semiótico", repercutindo de uma língua a outra, de um sentido ao outro, seguindo os rizomas da significação, atingindo tanto melhor as potências do espírito quanto ela atravessasse os corpos e os afetos. Não declaraste, tu mesmo, por ocasião de tua conferência virtual ao Futuroscopio que ... 
 "Se todas as coisas virassem fumaça, a gente as distinguiria pelas narinas"? (Fragmento 7) 

  Eu sei que aí, de onde me escreves, o Logos é desconhecido, minoritário, ainda por nascer. Mas de onde te respondo, o Logos é um soberano destronado, usado por longo reinado. Sistemas de dominação fundados sobre a escrita, tem isolado as línguas de outros modos de  expressão, estabeleceram-no matriz de um território semiótico, de agora em diante separado, parcelado, julgado segundo as exigências de um Logos dominador. Ora, a aparição das hipermídias, delineia em pontilhado uma possibilidade interessante (entre outras que o são menos) de uma restruturação aquém do caminho aberto pela escrita, aquém do logocentrismo triunfante, através da reabertura rica de todos os poderes do texto, um retorno armado de instrumentos desconhecidos, capazes de transforma-los em signos vivos. 
 Antes de se enclausurar na oposição fácil do texto razoável e da imagem  fascinante, não  seria necessário  tentar explorar  as possibilidades de pensamento e de expressão mais ricas, mais sutis, mais  refinadas, abertas  para mundos  virtuais às  simulações multimodais, aos suportes de escritas dinâmicas? 
 Na Jônia, tu tomas parte da invenção da filosofia, da ciência, da democracia.  O esforço que é exigido de nós, aqui, é sem dúvida ainda maior. Talvez seja necessário compará-lo ao que foi cumprido pelos nossos ancestrais quando da passagem de "homo habilis" a "homo sapiens”, ao inventarem a linguagem. 
 Os primeiros homens eram verdadeiramente nômades, eles seguiam as tropas de gado, que escolhiam elas mesmas sua alimentação, segundo as estações e as chuvas. Hoje “nomadisamos” atrás do futuro humano, um futuro que nos atravessa e que nós fazemos. O humano se voltou para si mesmo, seu próprio clima, uma estação infinita e sem retorno. Horda e tropas misturadas, cada vez menos separáveis de nossos instrumentos e de um modo estreitamente ligado a nossas caminhadas, nós percorremos cada dia uma estepe nova. 
 Os neandertalenses, bem adaptados às caçadas maravilhosas das tundras  glaciárias,  foram extintos,  quando  o  clima  muito rapidamente se humidificou e aqueceu.  Sua caça habitual desaparecia. Apesar de sua inteligência, estes homens que grunhiam ou eram mudos, não tinham voz, nem linguagem para se comunicar entre si. Assim, as soluções encontradas aqui e ali, a seus novos problemas, não puderam ser generalizadas. Eles permaneceram dispersos face á transformação do mundo ao seu redor. Eles não "mutaram" com o mundo. 
 Hoje, o homo sapiens faz face a uma modificação rápida de seu meio, transformação em que ele é o agente coletivo involuntário. Não pretendo aqui deixar subtendido que nossa espécie esteja ameaçada de extinção, nem que o "fim dos tempos" esteja próximo. Não se trata aqui de nenhum milenarismo. Eu me satisfaço em apontar uma alternativa... Ou nós ultrapassamos um novo limiar,  uma nova etapa de hominização, inventando algum atributo humano tão essencial quanto a linguagem, mas numa escala superior... ou bem nós continuamos a nos comunicar  pela mídia e a pensar, em instituições separadas umas das outras que organizem sobretudo o afogamento e a divisão das inteligências. Neste segundo caso nós não seríamos mais confrontados senão com problemas da sobrevida e do poder, mas se nós nos engajarmos sobre a via da inteligência coletiva, nós inventaremos progressi-vamente as técnicas,  os sistemas de signos, as formas de organização social e de regulação que nos permitirão pensar em conjunto, concentrar nossas forças intelectuais e espirituais, multiplicar, pensar em conjunto, concentrar nossas forças intelectuais e espirituais, multiplicar nossas imaginações e nossas experiências, negociar, em tempo real e em todas as escalas, as soluções práticas aos problemas complexos com que nos devemos confortar.  Nós aprenderíamos progressivamente a nos orientar em um novo cosmos em mutação, à deriva, a nos inventar coletivamente enquanto espécie. 
 A inteligência coletiva visa menos o seu próprio domínio pelas comunidades humanas do que "um deixar escapar" essencial que conduz à idéia de identidade, aos mecanismos de dominação e de detonamento de conflitos, ao desbloqueio de uma comunicação confiscada, ao relançar mútuo de pensamentos isolados. 
 Nós estamos, pois, na situação de uma espécie em que cada membro teria boa memória, seria observador astucioso, mas que não teria ainda se voltado para a inteligência coletiva de cultura, por defeito de linguagem articulada. Como inventar a linguagem quando jamais se falou, ou se nenhum de nossos ancestrais tivesse jamais proferido uma frase, se não existir exemplo, nem a menor idéia do que possa ser uma linguagem? Através desta analogia, apronta-se para uma situação presente: nós não sabemos o que devemos criar, o que talvez nós já tenhamos começado a esboçar obscuramente. Em alguns milênios, no entanto o "homo habilis" tornou-se "homo sapiens", transpôs um umbral semelhante, e se lançou no desconhecido, inventou a terra, os deuses e o mundo infinito da significação. 
 Mas as línguas são próprias para comunicação no seio de pequenas comunidades “em escala humana" e talvez para assegurar relações entre tais grupos. Graças á escrita, nós ultrapassamos uma nova etapa. Esta técnica autoriza um "algo mais" de eficácia da comunicação e organização de grupos humanos, muito maiores  do que as simples palavras teriam permitido. Isto aconteceu, entretanto, ao preço de uma divisão das sociedades entre uma máquina burocrática de tratamento da informação funcionando na escrita, por um lado, e das pessoas "administradas", por outro lado. O problema da inteligência coletiva é de descobrir ou inventar algo além da escrita, algo além da linguagem de tal modo que o tratamento da informação seja distribuída por toda parte e por todos coordenada. Que não seja mais apanágio de organismos sociais isolados, mas se integre, ao contrário, naturalmente, a todas as atividades humanas e retorne às mãos de cada um.  Esta nova dimensão da comunicação deveria, evidentemente, permitir-nos tornar mútuos nossos conhecimentos e de nos alertar reciprocamente - o que é a condição elementar da  inteligência coletiva.  Além disto, ela abriria duas possíveis majorações, que transformariam radicalmente os dados fundamentais da vida em sociedade.  Primeiro, nós disporíamos de meios simples  e práticos  para saber  o que  fazermos juntos.  Segundo, nós  manejaríamos a escrita muito mais facilmente do que hoje, com instrumentos que permitiriam enunciação coletiva.  E tudo isto não mais em escala de clãs paleolíticas, nem a nível do Estado e de instituições históricas do Território, mas segundo a amplitude e à velocidade das turbulências gigantescas, dos processos desterritorializados e do nomadismo antropológico que nos afetam hoje. Se nossas  sociedades se  contentassem em  ser apenas  inteligentemente dirigidas, é quase certo que não atingiriam seus  objetivos. Para ter algumas chances de viver melhor, elas devem se tornar inteligentes na massa popular. Para além da mídia, as maquinarias aéreas farão ouvir a voz do múltiplo.  Ainda indiscernível, abafada  pelas brumas do  futuro, banhado com seu  murmúrio uma outra  humanidade, nós temos um encontro com a "supralíngua". 


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