Email From Heraclitus and Replay

 

Com o telefone, nós não nos confrontamos com um rede um-todos, mas com a interação indefinida de uma comunicação um-um. Certamente a relação é interativa, mas não poder ser comunicada, salvo por poucos personagens de cada vez. O usuário do telefone está privado da visão global do que se passa no conjunto da rede. Pela televisão, sabia-se, ao menos, que mensagens os outros tinham recebido, pois era o mesmo olho, a mesma orelha para milhões de pessoas. O telefone, ao contrário, nos deixa no escuro a respeito de tudo a não ser sobre a comunicação interindividual em curso. Nesta rede um-um a gente sempre fica fora do espaço comum. A gente não se banha por toda a parte na mesma luz, graças a um terceiro dispositivo de comunicação, estruturado como uma rede todos-todos. No cyberspace, tal como ele é hoje, cada um é potencialmente um emissor e um receptor, num espaço de comunicação qualitativamente diferenciado, não estratificado, explorável. O exemplo mais conhecido (e o mais primário) desta comunicação do terceiro tipo é o mundo das conferências eletrônicas. Aqui as pessoas não se encontram prioritariamente por seus nomes ou por suas posições geográficas, ou por suas posições sociais, mas segundo os centros de interesse: sobre um espaço do sentido ou do conhecimento. O "tópico" se torna um lugar. Existem milhares de tópicos. Este espaço dinâmico se reorganiza à medida que as conversações evoluem. Este mundo virtual é destilado pela comunicação, não havendo pois, uma construção pré-existente que a restrinja. Ele emerge num espaço dinâmico de subjetividade coletiva, bem diferente do telefone onde os endereços são fixos, individuais, distribuidos e tarifados segundo a geografia dos territórios. A comunicação todos-todos não está senão nos seus primeiros balbucios. Ela implica em modos virtuais que não sejam apenas simulações de lugares físicos mas acolhendo crescimentos autônomos de espaços simbólicos de universos de significações partilhadas. O cyberspace tem vocação de abrigar os meios vivos, "hipercontextos", ao seio dos quais cada um se sente efetivamente participante e que todos contribuem para modelar e povoar por meio de seus computadores. 
 O cyberspace como a nova realidade estruturada pelas trocas e fluxos de conhecimento, produz um espaço paradoxal, de tipo “Moebius" onde o interior e o exterior não cessam de passar de um a outro. Não somente porque se trata de realidades virtuais, nas quais mergulha-se e não se mergulha no mesmo momento, mas sobretudo porque neste novo universo os mapas são os territórios. O mapa eficaz (o mundo informático) modifica e dirige os processos materiais, grandes consumidores de energia o mapa está no território. Simetricamente, aqui como ai onde te encontras, o informacional, (o logos), o virtual, são eminentemente "reais": o território está no mapa e não somente é representado por ele. O território está sobre um lado do anel de Moebius, o mapa está sobre o outro, e eles passam um pelo outro. Sem desagradar a Van Vogt, o mapa é o território. 
  Na rede, as distâncias geográficas não tem mais importância. Poder acessar imediatamente a todas as informações públicas contidas nas memórias informatizadas onde quer que estejam situadas no mundo; poder participar de conferêncais eletrônicas alimentadas por textos e imagens, por toda a parte; poder construir, de maneira distribuida e cooperativada, mundos virtuais, totalmente não localizados em um determinado ponto; poder dispor do poder do cálculo de máquinas situadas a milhares de quilômetros, como se a gente estivesse junto a elas; tudo isso muda profundamente os dados do problema da comunicação. Além disso, não se trata apenas da possibilidade de transmissão de mensagens instantâneamente - de um ponto a outro do planeta - mas do surgimento de um meio de comunicação quase oceânico - da expansão de um plano semiótico, móvel, vivo e desterritorializado, no qual cada ponto é inteligente, cada ponto é uma fonte de informação, cada ponto é um ator dando forma ao espaço.  
 Virtualmente, todos os textos não formam senão um imenso "hipertexto"; todas as imagens não constituem mais que um só "hiperícone", infinito, caleidoscópio; todas as músicas compõem juntas uma imensa e inaudível polifonia. Instrumentos como "World Wide Web" do qual te fiz demonstração em Éfeso, por ocasião de minha última viagem  - e que tu passaste a utilizar cotidianamente - tem realizado parcialmente o sonho de Ted Nelson: constituir a literatura mundial como hipertexto, um hipertexto alimentado continuamente de um Niágara de caracteres transbordantes de todos teclados do planeta. Os agentes lógicos, os buscadores automáticos de informação e os "knowbots" tem por objeto filtrar a hipermídia mundial, de torná-la legível, praticável, navegável... 
 O horizonte da comunicação é a humanidade constituida em "hipercortex", este banho de luz que emana dos participantes da inteligência coletiva e os envolve. 
 Não creio ignorar teus argumentos. A cultura da separação parece estar aí por muito tempo e eu bem sei que nós não formamos ainda uma inteligência coletiva - e que mesmo de um ponto de vista prático e econômico - a rede não será acessível a todos. Mas te falo de nossas possíveis técnicas e de nosso horizonte cultural.  
 Muitos esforços vão nesta direção. Os chips de memória tornam-se cada vez menores, mais potentes e mais baratos. As capacidades de cálculo aumentam regularmente há meio século e as de transmissão crescem inelutavelmente. Tu, o filósofo do relâmpago, talvez já tenhas ouvido falar da fibra ótica, canal do qual um só filete, fino como um cabelo, pode conter todos os fluxos de mensagem telefônica dos Estados Unidos no dia das mães! Um equipamento minúsculo com esta fibra ótica nos daria mil vezes a capacidade de transmissão hertziana sobre todo o espectro de frequência. 
 Que fazer destas capacidades de transmissão e de cálculo instantâneas? Quem sabe como se formaria a comunicação quando não houvesse mais praticamente nenhum canal, mas uma mutação de espaço - quando o próprio espaço se torna canal interativo? Como seria uma civilização de telepresença generalizada? As consequências sobre o trabalho, a educação, o urbanismo, as cidade, bem como a subjetividades e as identidades serão imensas. Não é mais necessário, sem dúvida, raciocinar em termos de consequências ou de impacto - mas de projeto. 
 A gente se banha simultâneamente na mesma luz...Que queremos fazer do cyberspace? - Nós respondemos: “a inteligência coletiva”. 
 
 

 Send mail to: heraclitus @ philopresoc.éfeso.gr 
 Subject: Encontro com a "sobrelíngua" 
 From: levy @ neuropelab.unige.ch 
 Date: 20 oct 1994 
 

 Obrigado por tua resposta enigmática e fascinante como semrpe. Há verdadeiramente um problema na rede? Será que esta versão do UNIX não aceita caracteres em grego antigo? Ou tu fazes questão de enviar apenas pedaços de textos? De qualquer modo eu reajo como sempre a algumas proposições tuas. 
 "Quando à este logos que está eternamente, os homens são incapazes de compreendê-lo, mesmo antes de tê-lo escutado, como após escutá-lo pela primeira vez". ( Fragmento 1) 
 "À escuta, não de mim mesmo mas do logos, ele é sábio ao reconhecer que tudo é um".- (Fragmento 50) 
 "Este logos, com o qual estão em contínuo contato, que rege todas as coisas, eles se separam delas - e são as coisas que encontram no cotidiano que lhes parecem estranhas”. (Fragmento 72) 


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