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A demanda por
formação não só está passando por um enorme crescimento
quantitativo, como também está sofrendo uma profunda mutação
qualitativa, no sentido de uma crescente necessidade de
diversificação e personalização. Os indivíduos suportam cada
vez menos acompanhar cursos uniformes ou rígidos que não
correspondem às suas reais necessidades e à especificidade de
seus trajetos de vida. Uma resposta ao crescimento da demanda por
uma massificação da oferta (mais da mesma coisa, com o fim de
alcançar economias de escala) seria uma resposta
«industrialista» à antiga, inadaptada à flexibilidade e à
diversidade futuramente requeridas.
Vê-se como o novo
paradigma da navegação (em oposição ao do «cursus»), que se
está desenvolvendo nas práticas de coleta de informação e de
aprendizado cooperativo no seio do ciberespaço, mostra a via de
um acesso ao mesmo tempo maciço e personalizado ao conhecimento.
As universidades e, cada
vez mais, as escolas de primeiro e segundo graus oferecem aos
estudantes a possibilidade de navegar sobre o oceano de
informação e conhecimento acessível pela internet. Programas
educativos podem ser seguidos à distância pela World Wide Web.
Os correios e as conferências eletrônicas servem para a
monitorização inteligente e são postos ao serviço de
dispositivos de aprendizado cooperativo. Os suportes hipermídia
(CD-ROM, bancos de dados multimídia interativos e em linha)
permitem acessos intuitivos rápidos e atrativos a grandes
conjuntos de informação. Sistemas de simulação permitem que
os aprendizes se familiarizem de maneira prática e barata com
objetos ou fenômenos complexos sem, por isso, sujeitarem-se a
situações perigosas ou difíceis de controlar.
Os especialistas da área
reconhecem que a distinção entre ensino «em presencial» e
ensino «à distância» será cada vez menos pertinente, pois o
uso das redes de telecomunicação e dos suportes multimídia
interativos está integrando-se progressivamente às formas de
ensino mais clássicas (1). O aprendizado à distância tem sido
durante muito tempo o «estepe» do ensino e, em breve,
tornar-se-á, se não a norma, ao menos a cabeça pesquisadora.
Com efeito, as características do AAD são semelhantes às da
sociedade da informação em seu conjunto (sociedade de rede, de
velocidade, de personalização, etc.). Além disso, esse tipo de
ensino está em sinergia com as «organizações aprendizes» que
uma nova geração de administradores está procurando implantar
nas sociedades.
O aprendizado cooperativo e o novo papel dos docentes
O ponto essencial aqui
é a mudança qualitativa nos processos de aprendizado.
Procura-se menos transferir cursos clássicos em formatos
hipermídia interativos ou «abolir a distância» do que
implementar novos paradigmas de aquisição dos conhecimentos e
de constituição dos saberes. A direção mais promissora, que
aliás traduz a perspectiva da inteligência coletiva no campo
educativo, é a do aprendizado cooperativo.
Certos dispositivos
informatizados de aprendizado de grupo foram especialmente
concebidos para a partilha de diversos bancos de dados e o uso de
conferências e mensagens eletrônicas. Fala-se, então, em
aprendizado cooperativo assistido por computador (em inglês:
Computer Supported Cooperative Learning ou CSCL). Nos novos
«campos virtuais», professores e estudantes põem em comum os
recursos materiais e informacionais à sua disposição. Os
professores aprendem ao mesmo tempo que os estudantes e atualizam
continuamente tanto seus saberes «disciplinares» quanto suas
competências pedagógicas. (A formação contínua dos docentes
é uma das aplicações mais evidentes dos métodos do
aprendizado aberto e à distância).
As últimas informações
atualizadas tornam-se fácil e diretamente acessíveis por
intermédio dos bancos de dados em linha e a www. Os estudantes
podem participar de conferências eletrônicas
desterritorializadas, nas quais intervêm os melhores
pesquisadores de sua disciplina. Assim sendo, a função-mor do
docente não pode mais ser uma «difusão dos conhecimentos»,
executada doravante com uma eficácia maior por outros meios. Sua
competência deve deslocar-se para o lado do incentivo para
aprender e pensar. O docente torna-se um animador da
inteligência coletiva dos grupos dos quais se encarregou. Sua
atividade terá como centro o acompanhamento e o gerenciamento
dos aprendizados: incitação ao intercâmbio dos saberes,
mediação relacional e simbólica, pilotagem personalizada dos
percursos de aprendizado, etc.
Rumo a uma regulação pública da economia do conhecimento
As reflexões e as
práticas sobre a incidência das novas tecnologias na educação
têm-se desenvolvido em diversos eixos. Muitos trabalhos, por
exemplo, foram realizados sobre a «multimídia», enquanto
suporte de ensino, ou sobre os computadores, como substitutos
incansáveis dos professores (ensino assistido por computador ou
EAC). Nessa visão extremamente clássica a
informática oferece máquinas de ensinar. Seguido outra
abordagem, os computadores são considerados como instrumentos de
comunicação, de pesquisa, de informação, de cálculo, de
produção de mensagens (textos, imagens ou som) a serem postos
nas mãos dos «aprendizes». A perspectiva aqui adotada também
é diferente. O uso crescente das tecnologias digitais e das
redes de comunicação interativa está acompanhando e ampliando
uma profunda mutação da relação com o saber, da qual tentei
traçar as grandes linhas neste capítulo. Ao prolongar certas
capacidades cognitivas humanas (memória, imaginação,
percepção), as tecnologias intelectuais com suporte digital
estão redefinindo seu alcance, seu significado, às vezes até
sua natureza. As novas possibilidades de criação coletiva
distribuída, de aprendizado cooperativo e de colaboração em
rede propiciada pelo ciberespaço estão questionando o
funcionamento das instituições e os modos habituais de divisão
do trabalho, tanto nas empresas quanto nas escolas.
Como manter as práticas
pedagógicas em fase com processos de transação de conhecimento
em via de rápida transformação e, no futuro, densamente
divulgados na sociedade? Não se trata aqui de utilizar a
qualquer custo as tecnologias, mas sim de acompanhar consciente e
deliberadamente uma mudança de civilização que está
questionando profundamente as formas institucionais, as
mentalidades e a cultura dos sistemas educativos tradicionais e,
notadamente, os papéis de professor e aluno.
O que está em jogo na
cybercultura, tanto no plano da redução dos custos como no do
acesso de todos à educação, não é tanto a passagem do
«presencial» para a «distância» e, tampouco, da escrita e do
oral tradicionais para a «multimídia». É sim a transição
entre uma educação e uma formação estritamente
institucionalizada (escola, universidade) e uma situação de
intercâmbio generalizado dos saberes, de ensino da sociedade por
ela mesma, de reconhecimento autogerido, móvel e contextual das
competências. Nesse quadro, o papel do poder público haveria de
ser:
1) garantir a cada um uma
formação elementar de qualidade (2);
2) permitir para todos um
acesso aberto e gratuito a mediatecas, centros de orientação,
documentação e autoformação, a pontos de entrada no
ciberespaço, sem negligenciar a indispensável mediação humana
do acesso ao conhecimento;
3) regular e animar uma
nova economia do conhecimento, na qual cada indivíduo, cada
grupo, cada organização sejam considerados como recursos
potenciais de aprendizado ao serviço de percursos de formação
contínuos e personalizados.
Saber-fluxo e dissolução das separações
Desde o fim dos anos 60
do presente século, os seres humanos têm começado a
experimentar uma relação com os conhecimentos e os know-how que
seus ancestrais desconheciam. Com efeito, antes deste período,
as competências adquiridas na juventude via de regra continuavam
em uso no fim da vida ativa. Tais competências até eram
transmitidas de maneira quase idêntica para os jovens ou
aprendizes. A bem da verdade, novos procedimentos, novas
técnicas surgiam. Contudo, inovações que se destacassem num
fundo de estabilidade eram a exceção. Na escala de uma vida
humana, a maior parte dos know-how úteis sutis eram perenes.
Ora, em nossos dias, a situação mudou radicalmente, pois a
maioria dos saberes adquiridos no começo de uma carreira
estarão obsoletos no fim de um percurso profissional, até mesmo
antes. As desordens da economia, assim como o ritmo precipitado
das evoluções científicas e técnicas, determinam uma
aceleração generalizada da temporalidade social. Por causa
disso é que os indivíduos e os grupos não se deparam mais com
saberes estáveis, com classificações de conhecimentos herdadas
e confortadas pela tradição, mas sim como um saber-fluxo
caótico, cujo curso é difícil de prever e no qual a questão
agora é aprender a navegar. A relação intensa com o
aprendizado, com a transmissão e a produção de conhecimentos
não está mais reservado para uma elite, mas diz respeito à
massa das pessoas em sua vida diária e em seu trabalho.
Portanto, está superado o
velho esquema segundo o qual se aprende na juventude um ofício
que será exercido pelo resto da vida. Os indivíduos são
chamados a mudar de profissão várias vezes em sua carreira e a
própria noção de ofício está tornando-se cada vez mais
problemática. Melhor seria raciocinar em termos de competências
variadas, das quais cada um possuiria uma coleção singular.
Cabe às pessoas, então, manterem e enriquecerem sua coleção
de competência ao longo de sua vida. Essa abordagem leva a
questionar a divisão clássica entre período de aprendizado e
período de trabalho (pois se aprende o tempo todo), bem como o
ofício enquanto principal modo de identificação econômica e
social das pessoas.
Com a formação
contínua, a formação em alternância, os dispositivos de
aprendizado na empresa, a participação na vida associativa,
sindical, etc., está constituindo-se um continuum entre tempo de
formação, por um lado, e tempos de experiência profissional e
social por outro. Dentro desse continuum, um lugar está sendo
aberto para todas as modalidades de aquisição de competências
(inclusive a autodidaxia).
Para uma parcela crescente
da população, o trabalho não é mais a execução repetitiva
de uma tarefa prescrita, mas sim uma atividade complexa, na qual
a resolução inventiva de problemas, a coordenação dentro de
equipes e a gestão de relações humanas ocupam lugares
não-desprezíveis. A transação de informações e
conhecimentos (produção de saberes, aprendizado, transmissão)
é parte integrante da atividade profissional. Com o uso da
hipermídia, dos sistemas de simulação e das redes cooperativas
de aprendizado cada vez mais integrados aos postos de trabalho, a
formação profissional das empresas tende a integrar-se à
produção.
A antiga relação com a
competência era substancial e territorial. Os indivíduos
reconheciam-se por seus diplomas, estes últimos ligados a
disciplinas. Os empregados de escritório eram identificados por
postos, que declinavam ofícios, que preenchiam funções. No
futuro, tratar-se-á muito mais de gerir processos, trajetos e
cooperações. As competências variadas, adquiridas pelas
pessoas de acordo com seus percursos particulares, irão
alimentar memórias coletivas. Acessíveis em linha, essas
memórias dinâmicas em suportes numéricos atenderão, por sua
vez, a necessidades concretas, aqui e agora, de indivíduos e
grupos em situação de trabalho ou aprendizado (é a mesma
coisa). Assim, à virtualização das organizações empresas
«em rede» corresponderá em breve uma virtualização da
relação com o conhecimento.
O reconhecimento do adquirido
Evidentemente, é para
esse novo universo do trabalho que a educação deve preparar.
Simetricamente, no entanto, deve-se admitir também o caráter
educativo ou formador de muitas atividades econômicas e sociais,
o que levanta evidentemente o problema de seu reconhecimento ou
validação oficial, sendo que o sistema de diplomas parece cada
vez menos adequado. Por outro lado, o tempo necessário para a
homologação de novos diplomas e para a constituição dos
currículos que levam a eles não está mais em fase com o ritmo
de evolução dos conhecimentos.
Pode parecer banal afirmar
que todos os tipos de aprendizado e formação devem poder dar
lugar a uma qualificação ou a uma validação socialmente
reconhecida. Atualmente, entretanto, estamos muito longe disso.
Um grande número de processos vigentes em curso por meio de
dispositivos formais de formação contínua, para falarmos
apenas das competências adquiridas durante as experiências
sociais e profissionais dos indivíduos, não geram hoje nenhuma
qualificação. A relação com o saber emergente, cujas grandes
linhas eu esbocei, traz o questionamento da estreita associação
entre duas funções dos sistemas educativos: o ensino e o
reconhecimento dos saberes. Como os indivíduos aprendem cada vez
mais fora das fileiras acadêmicas, cabe aos sistemas de
educação implantarem procedimentos de reconhecimento dos
saberes e know-how adquiridos na vida social e profissional. Para
esse fim, serviços públicos que explorassem em grande escala as
tecnologias da multimídia (testes automatizados, exames em
simuladores) e da rede interativa (possibilidade de fazer testes
ou fazer reconhecer suas aquisições com a ajuda de
orientadores, monitores e examinadores em linha) poderiam aliviar
os docentes e as instituições educacionais clássicas de uma
tarefa de controle e validação menos «nobre» mas ainda
necessária do que o acompanhamento dos aprendizados.
Graças a esse grande serviço descentralizado e aberto de
reconhecimento e validação dos saberes, todos os processos,
todos os dispositivos de aprendizado, até os menos formais,
poderiam ser sancionados por uma qualificação dos indivíduos.
A evolução do sistema de
formação não pode ser dissociada da evolução do sistema de
reconhecimento dos saberes que o acompanha e pilota. A título de
exemplo, sabe-se que os exames é que estruturam, a jusante, os
programas de ensino. Utilizar todas as tecnologias novas na
educação e formação sem nada mudar nos mecanismos de
validação dos aprendizados equivale, ao mesmo tempo, a aumentar
os músculos da instituição escolar e a bloquear o
desenvolvimento de seus sentidos e cérebro.
Uma desregulação
controlada do atual sistema de reconhecimento dos saberes poderia
favorecer o desenvolvimento das formações alternadas e de todas
as formações que conferissem um lugar importante à
experiência profissional. Ao autorizar a invenção de modos
originais de validação, tal desregulação encorajaria também
as pedagogias pela exploração coletiva e todas as formas de
iniciativas a meia distância entre a experimentação social e a
formação explícita.
Semelhante evolução não
deixaria de gerar interessantes retroefeitos para certos modos de
formação de tipo escolar, freqüentemente bloqueados em estilos
de pedagogia pouco aptos para mobilizar a iniciativa, por
orientar-se apenas pela sanção final do diploma. Numa
perspectiva ainda mais ampla, a desregulação controlada do
reconhecimento dos saberes aqui referida estimularia uma
socialização das funções públicas da escola. Com efeito, ela
permitiria que todas as forças disponíveis concorressem ao
acompanhamento de trajetos de aprendizados personalizados,
adaptados aos objetivos e às diversas necessidades dos
indivíduos e das comunidades implicadas.
Os desempenhos industriais
e comerciais das empresas, das regiões, das grandes zonas
geopolíticas estão em estreita correlação com políticas de
gestão do saber. Conhecimentos, know-how, competências são
hoje a principal fonte da riqueza das empresas, das grandes
metrópoles, das nações. Ora, vive-se hoje importantes
dificuldades na gestão dessas competências, tanto no nível de
pequenas comunidades como no das regiões. Do lado da demanda,
observa-se uma inadequação crescente entre as competências
disponíveis e a demanda econômica. Do lado da oferta, um grande
número de competências não são nem reconhecidas, nem
identificadas, mais especialmente entre os que não possuem um
diploma. Esses fenômenos são particularmente sensíveis nas
situações de reconversões industriais ou de atraso de
desenvolvimento de regiões inteiras. Deve-se, paralelamente aos
diplomas, imaginar modos de reconhecimento dos saberes que possam
prestar-se para uma visualização em rede da oferta de
competência e a uma pilotagem dinâmica retroativa da oferta
pela demanda. Para tanto, a comunicação através do
ciberespaço pode ser uma grande ajuda.
Uma vez aceito o
princípio segundo o qual toda e qualquer aquisição de
competência deve poder dar lugar a um explícito reconhecimento
social, os problemas da gestão das competências, tanto na
empresa como no nível das coletividades locais, estarão a
caminho, se não de sua solução, ao menos de sua mitigação.
(1) Open and Distance
Learning, Critical Success Factors. Accès à la formatoin à
distance: clés pour un développement durable. Editors: Gordon
Davies & David Tinsley. Atas, Conferência Internacional,
Genebra, 10 a 12 de outubro de 1994, 203 páginas.
(2) Todos os especialistas
das políticas de educação reconhecem o papel essencial da
qualidade e da universalidade do ensino elementar para o nível
geral de educação de uma população. Além disso, o ensino
elementar abarca todas as crianças, enquanto o ensino do segundo
grau e, sobretudo, o superior envolvem apenas parte dos jovens.
Ora, o segundo grau e o superior públicos, que custam muito mais
do que o ensino elementar, são financiados pela totalidade dos
contribuintes. Existe aí uma fonte de desigualdade
particularmente gritante nos países pobres. Ver mais
especialmente, de Sylvain Lourié, Ecole et tiers monde, [Escola
e Terceiro Mundo], Ed. Flammarion, Paris, 1993.
FONTE: http://portoweb.com.br/PierreLevy/educaecyber.html