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Talvez a
desterritorialização da biblioteca a que estamos presenciando
hoje não seja senão o prelúdio do surgimento de um quarto tipo
de relação com o conhecimento. Por uma espécie de volta em
espiral até a oralidade das origens, o saber poderia novamente
ser carregado pelas coletividades humanas vivas, do que por
suportes separados, servidos por intérpretes ou cientistas. Só
que, dessa vez, ao contrário da oralidade arcaica, o carregador
direto do saber não seria mais a comunidade física e sua
memória carnal, mas sim o ciberespaço, a região dos mundos
virtuais pelo intermédio dos quais as comunidades descobrem e
constroem seus objetos e se conhecem como coletivos inteligentes.
Os sistemas e os conceitos
estão doravante cedendo terreno aos finos mapas das
singularidades, à descrição detalhada dos grandes objetos
cósmicos, dos fenômenos da vida ou das matérias humanas.
Tomemos todos os grandes projetos tecnico-científicos
contemporâneos: física das partículas, astrofísica, genoma
humano, espaço, nanotecnologias, acompanhamento das ecologias e
dos climas
estão todos suspensos ao ciberespaço e às
suas ferramentas. Os bancos de dados de imagens, as simulações
interativas e as conferências eletrônicas permitem um melhor
conhecimento do mundo do que a abstração teórica, relegada ao
segundo plano. Ou melhor, eles definem a nova norma do
conhecimento. Além disso, tais ferramentas permitem uma eficaz
coordenação dos produtores de saber, enquanto teorias e
sistemas suscitavam antes a adesão ou o conflito. É
impressionante constatar que certas experiências realizadas nos
grandes aceleradores de partículas mobilizam tantos recursos,
são tão complexas e difíceis de interpretar que elas mal
ocorrem mais de uma vez. Cada experiência é quase que singular.
Isso parece contradizer o ideal de reprodutibilidade da ciência
clássica. Ainda assim, essas experiências continuam universais;
porém, de outra maneira que não a possibilidade de
reprodução. Delas participam uma multidão de cientistas de
todos os países, que formam uma espécie de microcosmo ou de
projeção da comunidade internacional. Mas, e sobretudo, o
contato direto com a experiência praticamente desapareceu em
proveito da produção em massa de dados numéricos. Ora, esses
dados podem ser consultados e processados num grande número de
laboratórios espalhados, graças aos instrumentos de
comunicação e processamento do ciberespaço. Assim, o conjunto
da comunidade científica pode participar dessas experiências
muito particulares, as quais são outros tantos eventos. A
universidade apóia-se, pois, sobre a interconexão em tempo real
da comunidade científica, sua participação cooperativa nos
eventos que lhe concernem, mais do que sobre a depreciação do
evento singular que caracterizava a antiga universalidade das
ciências exatas.
A simulação: um modo de conhecimento próprio da cybercultura
Entre os novos gêneros
de conhecimento carregados pela cybercultura, a simulação ocupa
um lugar central. Numa palavra, trata-se de uma tecnologia
intelectual que decuplica a imaginação individual (aumento da
inteligência) e permite que grupos partilhem, negociem e refinem
modelos mentais comuns, qualquer que seja a complexidade de tais
modelos (aumento da inteligência coletiva). Para incrementar e
transformar certas capacidades cognitivas humanas (a memória, a
imaginação, o cálculo, o raciocínio expert), a informática
exterioriza parcialmente essas faculdades em suportes numéricos.
Ora, ao serem exteriorizados e reificados, esses processos
cognitivos tornam-se partilháveis, reforçando, portanto, os
processos de inteligência coletiva
desde que as técnicas
sejam utilizadas com discernimento.
Até os sistemas experts
(ou sistemas baseados em conhecimentos), tradicionalmente postos
na categoria «inteligência artificial», deveriam ser
considerados como técnicas de comunicação e mobilização
rápida dos know-how de práticas nas organizações, mais do que
como duplicações de experts humanos. Tanto no plano cognitivo
quanto na organização do trabalho, as tecnologias intelectuais
devem ser pensadas em termos de articulação e postas em
sinergia, mais do que de acordo com o esquema da substituição.
As técnicas de
simulação, em particular as que envolvem imagens interativas,
não substituem os raciocínios humanos, mas prolongam e
transformam as capacidades de imaginação e pensamento. Com
efeito, nossa memória de longo prazo tem a capacidade para
armazenar uma quantidade muito grande de informações e
conhecimentos. Nossa memória de curto prazo, que contém as
representações mentais às quais prestamos deliberadamente
nossa atenção, possui, ao contrário, capacidades muito
limitadas. Para nós é impossível, por exemplo, representarmos
clara e distintamente mais de uma dezena de objetos em
interações.
Embora possamos evocar
mentalmente a imagem do castelo de Versalhes, não conseguimos
contar suas janelas «em nossa cabeça». O grau de resolução
da imagem mental não é suficiente. Para chegar a esse nível de
detalhe, necessitamos de uma memória auxiliar externa (gravura,
fotografias, pintura), graças à qual poderemos efetuar novas
operações cognitivas: contar, medir, comparar, etc. A
simulação é uma ajuda para a memória de curto prazo que
envolve não imagens fixas, textos ou tabelas de números, e sim
dinâmicas complexas. A capacidade de fazer variar facilmente os
parâmetros de um modelo e observar de imediato e visualmente as
conseqüências dessa variação constitui-se numa verdadeira
ampliação da imaginação.
Hoje em dia, a simulação
exerce um papel crescente nas atividades de pesquisa científica,
de concepção industrial, de gestão, de aprendizado, mas
também para o jogo e a diversão (em especial os jogos
interativos na tela). Em teoria, em experiência, a maneira de
industrialização da experiência de pensamento a
simulação é um modo especial de conhecimento, próprio
da cybercultura nascente. Na pesquisa, seu principal interesse
não está, evidentemente, na substituição da experiência, nem
em fazer as vezes de realidades, mas em permitir a formulação e
a rápida exploração de um grande número de hipóteses. Sob o
ângulo da inteligência coletiva, ela permite a colocação em
imagens e a partilha de mundos virtuais e de universos de
significado de uma grande complexidade.
Doravante, os saberes são
codificados em bancos de dados acessíveis em linha, em mapas
alimentados em tempo real pelos fenômenos do mundo e em
simulações interativas. A eficiência, a fecundidade
heurística, o poder de mutação e bifurcação, a pertinência
temporal e contextual dos modelos estão suplantando os antigos
critérios de objetividade e universalidade abstrata. Está
presente, no entanto, uma forma mais concreta de universalidade
pela capacidades de conexão, o respeito de padrões ou formatos,
a compatibilidade ou a interpolaridade planetária.
Da interconexão caótica à inteligência coletiva
Destotalizado, o saber
flutua. Donde vem um violento sentimento de desorientação.
Deveremo-nos crispar nos procedimentos e esquemas que garantiam a
antiga ordem do saber? Não devermos, ao contrário, dar um pulo
e penetrar em cheio na nova cultura, que oferece remédios
específicos para os males que a mesma gera? É certo que a
interconexão em tempo real de todos com todos é a causa da
desordem. Mas ela é também a condição de possibilidade das
soluções práticas para os problemas de orientação e
aprendizado no universo do saber em fluxo. Com efeito, essa
interconexão favorece os processos de inteligência coletiva nas
comunidades virtuais, graças a que o indivíduo vê-se menos
desprovido frente ao casos informacional.
Mais precisamente, o ideal
mobilizador da informática não é mais a inteligência
artificial (tornar uma máquina tão inteligente, mais
inteligente até, quanto um homem), mas sim a inteligência
coletiva, isto é, a valorização, a utilização otimizada e a
colocação em sinergia das competências, imaginações e
energias intelectuais, independentemente de sua diversidade
qualitativa e de sua localização. Esse ideal da inteligência
coletiva passa evidentemente pela colocação em comum da
memória, da imaginação e da experiência, por uma prática
banalizada do intercâmbio de conhecimentos, por novas formas,
flexíveis e em tempo real, de organização e coordenação.
Embora as novas técnicas de comunicação favoreçam o
funcionamento, em inteligência coletiva, dos grupos humanos,
cabe repetir que elas não o determinam de maneira automática. A
defesa de poderes executivos, das rigidezes institucionais, a
inércia das mentalidades e das culturas podem evidentemente
levar a utilizações sociais das novas tecnologias muito menos
positivas, conforme critérios humanistas.
O ciberespaço,
interconexão dos computadores do planeta, tende a tornar-se a
maior infra-estrutura da produção, da gestão, da transação
econômica. Em breve, constituirá o principal equipamento
coletivo internacional da memória, do pensamento e da
comunicação. Em suma, daqui a algumas décadas, o ciberespaço,
suas comunidades virtuais, suas reservas de imagens, suas
simulações interativas, sua irreprimível profusão de textos e
sinais serão o mediador essencial da inteligência coletiva da
humanidade. Com esse novo suporte de informação e
comunicação, estão emergindo gêneros de conhecimentos
inéditos, critérios de avaliação inéditos para orientar o
saber, os novos atores na produção e no processamento dos
conhecimentos. Toda e qualquer política de educação deverá
levá-lo em consideração.
Mutações da educação e economia do saber
Aprendizado aberto e à distância
Os sistemas de
educação estão sofrendo hoje novas obrigações de quantidade,
diversidade e velocidade de evolução dos saberes. Num plano
puramente quantitativo, jamais foi tão maciça a demanda por
formação. Em muitos países, a maioria de uma classe etária é
que recebe um ensino de segundo grau. As universidades estão
mais do que lotadas. Os dispositivos de formação profissional e
contínua estão saturados. A título de imagem, dir-se-á que
metade da sociedade está, ou gostaria de estar, na escola.
Será impossível aumentar
o número de professores proporcionalmente à demanda de
formação que é, em todos os países do mundo, cada vez mais
diversa e maciça. A questão do custo do ensino surge mais
especialmente nos países pobres. Ou seja, será necessário
decidir-se a encontrar soluções que apelem para técnicas
capazes de multiplicar o esforço pedagógico dos professores e
dos formadores. Audiovisual, «multimídia» interativa, ensino
assistido por computador, televisão educativa, cabo, técnicas
clássicas de ensino à distância fundamentadas essencialmente
na escrita, monitorado por telefone, fax ou internet
Todas
essas possibilidades técnicas, de uma maior ou menor
pertinência conforme seu conteúdo, a situação, as
necessidades do «aprendiz», podem ser consideradas e já têm
sido amplamente testadas e experimentadas. Tanto no plano das
infra-estruturas materiais quanto no dos custos de operação,
escolas e universidades «virtuais» custam menos do que as
escolas e universidades que ministram em «presencial».