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Na Web, tudo está no mesmo plano. Não obstante, tudo está diferenciado. Não há nenhuma hierarquia absoluta, e cada sítio é um agente de seleção, de encaminhamento ou de hierarquização parcial. Longe de ser uma massa amorfa, a Web articula uma multidão aberta de pontos de vista; porém, essa articulação opera-se transversalmente, em rizoma, sem ponto de vista de Deus, sem unificação superior. Que esse estado de coisas gera confusão, cada um o reconhece. Novos instrumentos de indexação e pesquisa precisam ser inventados, conforme atesta a riqueza dos trabalhos atuais sobre a cartografia dinâmica dos espaços de dados, os agentes inteligentes ou a filtragem cooperativa das informações. Ainda assim, quaisquer que sejam os progressos vindouros das técnicas de navegação, é muito provável que o ciberespaço conserve sempre seu caráter profuso, aberto, radicalmente heterogêneo e não-totalizável.
O segundo dilúvio e a inacessibilidade do tudo
Sem fechamento
semântico ou estrutural, a Web tampouco está parada no tempo.
Aumenta, mexe-se e transforma-se sem parar. A World Wide Web
está fluindo, escoando. Suas inumeráveis fontes, suas
turbulências, sua irresistível ascensão oferecem uma
fantástica imagem da cheia contemporânea de informação. Cada
reserva de memória, cada grupo, cada indivíduo, cada objeto
pode tornar-se emissor e aumentar o fluxo. A esse respeito e de
maneira colorida, Roy Ascott fala do segundo dilúvio. O dilúvio
de informações. Para o melhor ou o pior, esse dilúvio não
será acompanhado por nenhum refluxo. Devemos acostumarmo-nos a
essa profusão e a essa desordem. A não ser alguma catástrofe
cultural, nenhum grande reordenamento, nenhuma autoridade central
nos levará de volta à terra firme, nem às paisagens estáveis
e bem balizadas anteriores à inundação.
O ponto da virada
histórica da relação com o saber situa-se provavelmente no fim
do século XVIII, naquele momento de frágil equilíbrio em que o
mundo antigo brilhava com suas melhores luzes, enquanto as
fumaças da revolução industrial começavam a mudar a cor do
céu. Quando Diderot e dAlembert publicavam sua grande
Enciclopédia. Até aquele momento, então, um pequeno grupo de
homens podia ter a esperança de dominar a totalidade dos saberes
(ou ao menos os principais) e propor aos outros o ideal desse
domínio. O conhecimento ainda podia ser totalizado, somado. A
partir do século XIX, com a ampliação do mundo, com a
progressiva descoberta de sua diversidade, com o crescimento cada
vez mais rápido dos conhecimentos científicos e técnicos, o
projeto de domínio do saber por um indivíduo ou um pequeno
grupo tornou-se cada vez mais ilusório. Tornou-se hoje evidente,
tangível para todos, que o conhecimento passou definitivamente
para o lado do não-totalizável, do indominável. Não podemos
senão desistir.
A emergência do
ciberespaço não significa em absoluto que tudo
esteja enfim acessível, mas que o tudo está definitivamente
fora de alcance. O que salvar do dilúvio? O que é que
colocaremos na arca? Pensar que poderíamos construir uma arca
que contivesse o principal seria precisamente ceder
à ilusão da totalidade. Todos nós, instituições,
comunidades, grupos humanos, indivíduos, necessitamos construir
um significado, providenciar zonas de familiaridade, domesticar o
caos ambiente. Mas, por um lado, cada um deve reconstruir à sua
maneira totalidades parciais, de acordo com seus próprios
critérios de pertinência. Por outro lado, essas zonas
apropriadas de significado deverão necessariamente ser móveis,
mutantes, em devir. De modo que, à imagem da grande arca,
devemos substituir a flotilha de pequenas arcas, botes ou
sampanas, uma miríade de pequenas totalidades, diferentes,
abertas e provisórias, segregadas por filtragem ativa,
perpetuamente retomadas pelos coletivos inteligentes que se
cruzam, se chamam, se chocam ou se misturam nas grandes águas do
dilúvio informacional.
Hoje, pois, as metáforas
centrais da relação com o saber são a navegação e o surfe,
que implicam uma capacidade para enfrentar as ondas, os
turbilhões, as correntes e os ventos contrários numa extensão
plana, sem fronteiras e sempre mutante. Em contrapartida, as
velhas metáforas da pirâmide (escalar a pirâmide do saber), da
escala ou do curso (já todo traçado) têm aquele cheiro gostoso
das hierarquias imóveis de outrora.
Quem sabe? A
reencarnação do saber
As páginas Web expressam
as idéias, os desejos, os saberes, as ofertas de transação de
pessoas e grupos humanos. Atrás do grande hipertexto está
borbulhando a multidão e suas relações. No ciberespaço, o
saber não pode mais ser concebido como algo abstrato ou
transcendente. Está se tornando cada vez mais evidente e
até tangível em tempo real que esse saber expressa uma
população. Não só as páginas Web são assinadas, igualmente
às páginas de papel, como também costumam desembocar numa
comunicação direta, interativa, via correio digital, fórum
eletrônico, ou outras formas de comunicação por mundos
virtuais, como os MUDs ou os MOOs. Assim, ao contrário do que a
vulgata mediática deixa crer sobre a pretensa frieza
do ciberespaço, as redes digitais interativas são potentes
fatores de personalização ou encarnação do conhecimento.
Devemos lembrar sem cansar
a inanidade do esquema da substituição. Da mesma maneira que a
comunicação pelo telefone não tem impedido as pessoas de
encontrarem-se fisicamente, pois usamos o telefone para marcar
nossos encontros, a comunicação por mensagens eletrônicas
muitas vezes prepara viagens físicas, colóquios ou reuniões de
negócio. Mesmo quando não acompanha algum encontro material, a
interação no ciberespaço não deixa de ser uma forma de
comunicação. Ouve-se às vezes, porém, o argumento de que
certas pessoas passam horas frente à tela,
isolando-se dos outros. Não resta dúvida de que não podemos
encorajar os excessos. Mas será que dizemos de quem lê que ele
passa horas diante de papel? Não. Porque a pessoa
que lê não está se relacionando com uma folha de celulose, mas
está em contato com um discurso, com vozes, com um universo de
significado que ela contribui para construir, para habitar com
sua leitura. Que o texto esteja numa tela não muda em nada o
fundo da questão. Trata-se ainda de leitura, embora, conforme
vimos, as modalidades da leitura tendam a transformar-se com os
hipertextos e a interconexão geral.
Ainda que os suportes de
informação não determinem automaticamente tal ou qual
conteúdo de conhecimento, eles não deixam de contribuir para
estruturar fortemente a «ecologia cognitiva» das sociedades.
Pensamos com e em grupos e instituições que tendem a reproduzir
suas idiossincrasias impregnando-nos com seu clima emocional e
seus funcionamentos cognitivos. Nossas faculdades para conhecer
trabalham com línguas, sistemas de sinais e procedimentos
intelectuais fornecidos por uma cultura. Não se multiplica da
mesma maneira com cordas, nós, pedras, números romanos,
números arábicos, ábacos, réguas de cálculo ou calculadoras.
Ao não oferecer as mesmas imagens do mundo, os vitrais das
catedrais e as telas de televisor não suscitam os mesmos
imaginários. Certas representações não podem sobreviver por
muito tempo numa sociedade sem escrita (números, tabelas,
listas), enquanto é fácil arquivá-las graças às memórias
artificiais. Para codificar seus saberes, as sociedades sem
escrita desenvolveram técnicas de memória apoiadas no ritmo, no
relato, na identificação, na participação do corpo e na
emoção coletiva. Com a ascensão da escrita, ao contrário, o
saber pôde desvencilhar-se parcialmente das identidades pessoais
ou coletivas, tornar-se mais «crítico», almejar uma certa
objetividade e um alcance teórico «universal». Não são
apenas os modos de conhecimento que dependem dos suportes de
informação e das técnicas de comunicação. Também são, pelo
intermédio das ecologias cognitivas que elas condicionam, os
valores e os critérios de julgamentos das sociedades. Ora, são
precisamente os critérios de avaliação do saber (no sentido
mais amplo da palavra) que entram no jogo com a extensão da
cybercultura, com o provável, já observável, declínio dos
valores vigentes na civilização estruturada pela escrita
estática. Não é que esses valores sejam chamados a
desaparecer, mas tornar-se-ão secundários, perderão seu poder
de comando.
Mais importante talvez do
que os gêneros de conhecimentos e os critérios de valor que as
polarizam, cada ecologia cognitiva favorece certos atores, postos
no centro dos processos de assimilação e exploração do saber.
Aqui a questão não é mais «como?», nem «segundo que
critérios?», mas «quem?».
Nas sociedades anteriores
à escrita, o saber prático, mítico e real é encarnado pela
comunidade viva. A morte de um velho é uma biblioteca em chamas.
Com o advento da escrita, o saber é carregado pelo livro. O
livro, único, indefinidamente interpretável, transcendente, que
contém supostamente tudo: a Bíblia, o Alcorão, os textos
sacros, os clássicos, Confúcio, Aristóteles
No caso, o
intérprete é que domina o conhecimento. Desde a prensa até
esta manhã, um terceiro tipo de conhecimento vê-se assombrado
pela figura do cientista, do científico. No caso, o saber não
é mais carregado pelo livro, mas sim pela biblioteca. A
Enciclopédia de Diderot e dAlembert é menos um livro do
que uma biblioteca. O saber é estruturado por uma série de
remissões, assombrado, talvez desde sempre, pelo hipertexto. O
conceito, a abstração ou o sistema servem, então, para
condensar a memória e garantir um domínio intelectual que a
inflação dos conhecimentos já está pondo em perigo.