CIBERIDENTIDADES

 

Na página 25 de As Tecnologias da Inteligência, Lévy elenca os princípios de um hipertexto que são, rapidamente, os princípios de metamorfose, de heterogeneidade, de multiplicidade e de encaixe das escalas, de exterioridade, de topologia e de mobilidade dos centros. Estes elementos apontam, na visão de Lévy, aspectos que estariam interferindo na constituição de novas subjetividades. No que, então, a informática - inicialmente, apenas um processo de tratamento da informação - viria a contribuir para alterações na forma de ser e de viver dos humanos? A relação com o espaço, com o tempo e com o saber são pistas que o autor aponta para pensar as ciberidentidades. Para além disso, se pergunta:    

  • o que acontece com a distinção bem marcada entre o sujeito e o objeto do conhecimento quando nosso pensamento encontra-se profundamente moldado por dispositivos materiais e coletivos sociotécnicos? Instituições e máquinas informacionais se entrelaçam no íntimo do sujeito. Quem pensa? É o sujeito nu e monádico, face ao objeto? São os grupos intersubjetivos? Ou ainda as estruturas, as línguas, as epistemes ou os inconscientes sociais que pensam em nós? (1995, p.10).
  • Neste sentido, podemos lançar mão das propostas de Lévy para repensar o próprio conceito de tecnologia. Simon (1995) partilha de alguns dos pressupostos de Lévy e aponta que a tecnologia diz respeito a formas de práticas constituídas no interior de formas particulares de conhecer e fazer (p.70). Estas práticas são concretizações de um conjunto de procedimentos, de mecanismos e de técnicas, ampliando a idéia de tecnologia para incluir a produção de formas materiais, sociais e espirituais; noções que assumem um caráter prático, pragmático em sua própria articulação de poder cultural. Contra, portanto, a idéia mais corrente de conceituar a tecnologia por oposição a tudo aquilo que possa estar contido numa suposta natureza humana. Esta idéia de tecnologia, portanto, está em consonância com os referenciais multiculturais de identidade como algo não fixo e mutável. Da mesma forma que acontece com as identidades, a tecnologia também é algo que se torna naturalizado. Um exemplo disso é o fato de que dificilmente pensamos que a roupa que vestimos, que o quadro negro e o lápis que utilizamos para escrever sejam tecnologias. Eles fazem habitam nosso cotidiano de tal forma que já fazem parte de nossa "natureza humana". Com Lévy podemos pensar a tecnologia como "tecnologias da inteligência". Estas se articulam com nosso sistema cognitivo de tal forma que não conseguimos pensar sem seu auxílio.    

    Para o autor, as tecnologias transformam os modos de conhecer principalmente por duas razões. A primeira delas é por mudarem os agenciamentos interativos entre as pessoas: se as formas de interagir de determinada cultura são preponderantemente orais, elas tornam necessários agenciamentos espaço-temporais próximos; com a possibilidade da escrita, porém, é possível que as informações possam circular com uma distância espaço-temporal. A outra razão é que as tecnologias fornecem metáforas para pensar, constituindo-se como dispositivo técnico através do qual percebemos o mundo. Por exemplo, o conceito de máquina possibilitou a construção de um modelo de aparelho psíquico baseado nas idéias de a energia, de repressão, etc.    

    Nesta mesma linha de constatações, Lévy aponta um distanciamento entre as discussões e a evolução técnica. Por exemplo, os projetos de manipulação genética ou mesmo sobre o desenvolvimento de armamentos (como bem aponta Virilio) ficam restritos a guetos científicos, alheios à discussão ética sobre seu uso. Para entender esta "tendência", Lévy propõe uma razão histórica: a filosofia política e a reflexão sobre o conhecimento teriam se cristalizado em épocas nas quais as tecnologias de transformação e de comunicação estavam relativamente estáveis ou pareciam evoluir em uma direção previsível. Outro aspecto é que os processos sociotécnicos não estão sob jugo da coletividade, sendo este um ponto fundamental a ser alterado se quisermos caminhar em direção à tecnodemocracia. Um desses caminhos seria a informatização das empresas, a criação de rede telemática e a "introdução" dos computadores nas escolas. Estes fatos dariam margem a múltiplos conflitos e a necessárias negociações nos quais a técnica, a política e projetos culturais, misturando-se de forma inextrincável, encaminhariam discussões e... a tecnodemocracia (Lévy, 1995).   

    Virilio, questiona-se sobre os caminhos da técnica em nossa sociedade e propõe um trabalho radical de questionamento da relação com a tecnologia. A este trabalho designa o termo epistemo-técnica. Compara-o, metaforicamente, às primeiras pesquisas sobre cadáveres, sobre a morte, ou seja, penetrar no funcionamento atual da tecnologia é, desde já, inquiri-la. Uma das conseqüências de tal ato seria a alteração da relação entre a duração e a tecnologia. A grande questão de Virilio, a meu ver, está baseada nos efeitos que as criações humanas estão tendo em nossa vida cotidiana, efeitos imperceptíveis. Ele parte, em Guerra Pura (1984), da discussão sobre o efeito que as tecnologias de guerra tiveram sobre a sociedade civil: centramento das reservas e do capital dos estados em armamento, disseminação da população no espaço (os abrigos nucleares), desurbanização, morte do civil, entre outros fatores. Diz ele que, em nome da defesa, desintegra-se o território, gera-se a desurbanização, as relações econômicas se dissolvem, as relações sociais perdem seu espaço e os homens ficam cada vez mais desorientados e sós. O estado de derrota do ser é inevitável neste contexto. Uma de suas preocupações constantes diz respeito à aceleração do tempo, fato que apontamos no texto anteriormente. Com a tecnologização (telecomunicações, por exemplo) o tempo transcorrido é a medida: a unidade de medida são distâncias em tempo (op.cit.:109), é a cronopolítica, ou seja, a administração dos sistemas temporais através da tecnologia ou, ainda, a distribuição do tempo. A tecnologia acelera o tempo, diminui distâncias

    , conecta regiões do mundo, dando a impressão de onipresença no espaço. Portanto, a unidade do mundo passou do espaço para o tempo: Estamos nos encaminhando para uma situação em que cada cidade estará no mesmo lugar - no tempo. Haverá uma espécie de coexistência e provavelmente não muito pacífica entre as cidades que mantiveram a sua distância no espaço, mas que terão trombado no tempo (op.cit.: 64).   

    Segundo Lévy, Virilio é um autor catastrófico, o qual não percebe que pode haver apropriações diferenciadas, caminhos outros que a humanidade trilhará. Porém, Virilio pensa sobre o que já aconteceu (acidentes tecnológicos) e sobre o que poderá vir a acontecer. Assim, a meu ver, o embate é entre uma posição mais positiva, de aposta e outra de receio. Não chego a dizer que seja o embate entre os futuristas e os saudosistas, porque Virilio não nos diz para voltarmos as cavernas, nem para, apesar da existência de Boing, andarmos a pé, o que o autor aponta é a necessidade de pensarmos sobre os encaminhamentos.    

    Virilio traz outro aporte interessante que é o fato de que as tecnologias tiveram seu grande boom na época das guerras, sendo que o computador foi criado inicialmente para calcular a "mira" das bombas. Teria permanecido alguma coisa deste estado inicial?   

    Tais autores/as partilham, em maior ou em menor medida, da idéia de um "acoplamento" entre coisas (máquinas, equipamentos, etc.) e humanos/as. Desta forma, aproximam-se da idéia de cyborg. Ser meio homem, meio máquina, que povoa o imaginário. Mais radicalmente, Donna Haraway discute este conceito de cyborg. Expõe esta figura como um transgressor de fronteiras que, vivendo entre dois mundos, naturais e fabricados, é desterritorializado, desnaturado. Esta figura, para a autora, situa-se originalmente fora das separações entre sujeito/objeto e, como filhos ilegítimos do militarismo e do capitalismo patriarcal, isso para não mencionar o socialismo de estado (Haraway, 1996, p. 2) são infiéis a sua origem, dispensando completamente os pais. A tentativa é a de instaurar um campo de ruptura entre as imagens já arraigadas de cisão entre o humano e o animal, entre organismo e máquina, entre físico e não-físico. Neste sentido, as produções de Lévy parecem se aproximar, quando este define ecologia cognitiva como um amálgama de humanos e de coisas.    

    Cyborgs seres ubíquos e invisíveis, seres transgressores de fronteiras, para além de todas as reificações modernas, das totalidades teórica, prótese constitutiva.   

    As colocações de Haraway são potentes e afirmativas. Green e Bigun (1995) relativizam a força da existência de cyborgs "tão genuínos", porém não deixem de apontar os fenômenos de hibridização e de movimentos de transgressão de algumas fronteiras, como a corpórea, a imagética, a de tempo. Neste sentido, haveria uma nova geração de seres (estudantes), partilhando de pressupostos e de referências espaço-temporais diferenciadas de seus/suas professores/as, pais, companheiros/as de outras gerações. O fosso de separação é tido pelos autores como tão profundo que demarcaria uma total estranheza dentre os dois elementos pertencentes, cada qual a um lado da fortaleza medieval. De um lado, habitantes do século real, de outros os do século virtual.    

    As teorizações que trouxemos neste pequeno ensaio apontam para uma novas formas de engendramento de identidades móveis, flexíveis, cyborgs, alienígenas, tradutoras de diversos campos... A questão que fica é, como, na segunda-feira de manhã, encarar estas "figuras" na sala de aula.    

    À guisa de reflexões sobre ciberidentidades na escola   

    Green e Bigum (1995) apontam as dificuldades que a escola encontra em continuar existindo, pois as funções que na modernidade foram gestadas para ela, deslocaram-se, devido a movimentos históricos, para a mídia. Assim, qual é o lugar de sustentação da escola em tempos pós-modernos?   

    O que penso a partir desta literatura e influenciada pelos escritos de Virilio é que devemos efetivamente nos debruçarmos sobre a questão da tecnologia - mesmo que não exista a Tecnologia, afastada das ações humanas - fazer o que ele denomina de questionamento epistemo-técnico.   

    Um primeiro momento seria trabalhar sobre o imaginário que temos sobre tecnologia. Este é vastamente povoado, contando não só com imagens de objetos úteis, como bem aponta Santos (1995), mas também com imagens de super-máquinas, controladoras, semelhantes ao que mostra o filme de Orwell, 1984. Neste caso, seriam máquinas que viriam a substituir o homem (a infância - videogames, o sexo - sexo virtual, a percepção - realidade virtual, as relações interpessoais - telefone, Internet, redes telemáticas, a lista é infindável). Na escola, parece que este imaginário está à solta, professores/as receosos/as de serem substituídos/as por máquinas. Se bem que, nas fábricas, algo deste gênero já vem acontecendo, fazendo surgir frases como: "necessitamos de um novo trabalhador para o futuro, apto a lidar com a informação e que não dê conta apenas de tarefas repetitivas, rotineiras". De outro lado, retomando a discussão sobre a técnica, Santos aponta questões importantes sobre a relação homem/técnica que podem ser úteis para pensarmos na relação professor/a-computador, especificamente quando o autor enuncia que há uma enorme dificuldade que o homem moderno tem em superar a relação senhor-escravo que mantém com a máquina. Com efeito, parece que o homem não consegue abandonar essa espécie de braço-de-ferro que tem jogado com os objetos técnicos (1995, p. 47).   

    Pensar na escola a partir do recorte de ecologia cognitiva, da "nova" ecologia cognitiva informática é difícil, pois percebemos que a escola manipula com a informação, basicamente com a transmissão da informação. Essa é uma idéia para entender a rejeição que alguns professores/as demonstram quando lhes é proposta a possibilidade de trabalhar com computadores em sua prática pedagógica. De alguma forma, principalmente com a Internet, a escola da informação fica em xeque. Mas esta é uma questão a ser re-pensada, pois com a Internet haveria a facilitação de um processo. O papel da escola, do professor numa instituição que utilizasse a informática, não seria tanto o de divulgar as informações, já que, para isso, dispomos de outros meios com eficiência superior, mas seria sim o de possibilitar o conhecimento. Neste sentido, não existiria a necessidade de uma competição com os novos recursos da informação, mas sim a descoberta, a construção de modos criativos de conhecimento usando múltiplas e variadas modalidades de informação já disponíveis.    


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