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Filiado ao movimento feminista, a idéia de identidade cultural baseia-se em um sistema de representação cultural, na idéia da nação tal como representada em sua cultura nacional. Uma nação é uma comunidade simbólica e é isso que explica seu poder de gerar um sentimento de identidade e lealdade (Hall, 1992, p.20) Esta cultura nacional contribuiu para criar padrões de alfabetização universais, generalizou uma única língua vernacular como o meio dominante de comunicação em toda a nação, criou uma cultura homogênea e manteve instituições culturais nacionais, como, por exemplo, um sistema educacional nacional.
Uma ruptura na forma de apreender a linguagem é formulada pelos teóricos do multiculturalisnmo quando afirmam que a cultura nacional é um discurso. Ou seja, na concepção de linguagem não mais enquanto representação, mas sim como construção de sentidos. Podemos, aqui, a fim de elucidar a virada analítica que se dá neste processo de ruptura colocar as questões que Hall enuncia a fim de circunscrever o campo da identidade nacional:
Para responder estas questões, o autor reporta 5 elementos principais:
Esta rede discursiva constrói identidades que são colocadas de modo ambíguo entre o passado e o futuro, de forma anacrônica, da mesma forma que se equilibra entre a tentação por retornar a glórias passadas e o impulso por avançar ainda mais em direção à modernidade. Um exemplo citado desta estratégia foi o que Margaret Tatcher afirmou, a fim de, olhando para o passado, para as glórias, imprimir um movimento em direção ao futuro, à modernização. Desta forma, os princípios de unidade de uma nação são a posse em comum de um rico legado de memórias e o desejo de viver em conjunto e a vontade de perpetuar.
A constituição da cultura nacional se dá através da unificação, longo processo de conquista violenta, pela supressão da diferença cultural. Além disso, as nações são sempre compostas de diferentes classes sociais e diferentes grupos étnicos e de gênero e partem de uma hegemonia cultural sobre as culturas dos colonizados.
A partir destas colocações, a proposta constitui-se em pensar as culturas nacionais enquanto um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade que se forma através do exercício de diferentes formas de poder cultural e não como um sistema unificado. Além disso, os fatos sociais têm um peso relevante nas teorizações. Desta forma, é importante atentar par o que vem acontecendo nos últimos anos deste século XX.
No momento histórico em que vivemos, o fenômeno da globalização está se espraiando e fazendo parte de nosso cotidiano (Canclini, 1995). Este se refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado (Hall, 1992, p. 28). Este é apontado como um fenômeno próprio do modernismo e do capitalismo, que foram marcados desde o início por movimentos de expansão e de abarcamento. O autor cita três possíveis conseqüências do processo de globalização:
1. as identidades nacionais se desintegram, como resultado do crescimento da homogeneização cultural e do "pós-modernismo global";
2. as identidades nacionais e outras identidades "locais" ou particularísticas são reforçadas pela resistência à globalização;
3. as identidades nacionais entram em declínio, mas novas identidades - híbridas - tomam seu lugar.
Na era da globalização, fala-se em identidades compartilhadas, como consumidores dos mesmos bens, clientes dos mesmos serviços, públicos para as mesmas mensagens e imagens, ao mesmo tempo em homogeneização cultural - "supermercado cultural". Desta forma, no interior do discurso do consumismo global, as diferenças e as distinções culturais que até então definiam a identidade ficam reduzidas a uma espécie de língua franca internacional ou de moeda global, em termos das quais todas as tradições específicas e todas as diferentes identidades podem ser traduzidas (Hall, 1992, p.32).
As possibilidades do efeito da globalização podem ser vistos como: (a) o fortalecimento de identidades locais na forte reação defensiva daqueles membros dos grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados pela presença de outras culturas que prega uma identidade una, que filtre as ameaças da experiência social (racismo cultural); (b) a re-identificação com as culturas de origem com a construção de fortes contra-etnicidades, como, por exemplo, o revival do tradicionalismo cultural, da ortodoxia religiosa e do separatismo político; (c) produção de novas identidades como, por exemplo, o black que congrega pessoas diferentes - comunidades afro-caribenhas e asiáticas, por exemplo, no contexto britânico - que são tratadas como se fossem a mesma coisa, tem, portanto, como eixo comum de equivalência a exclusão.
Nesta altura do texto, Hall define a palavra Tradução, remetendo a sua etimologia latina que significa transferir, transportar entre fronteiras. Assim, através deste conceito podemos pensar as identidades, como migrações, como entre identidades, como entre linguagens, como entre culturas, como necessidade de tradução e de negociação entre instâncias.
Em suma, uma das estratégias utilizadas pelos/as analistas multiculturalistas é a epistemológica, de dar visibilidade ao movimento histórico em que os conceitos foram engendrados e desconstruir as palavras que os nomeiam. Uma certa forma de ver estes processos é atravessada pela perspectiva foucaultiana de perceber as construções histórico-sociais como construções regidas por relações de poder e que, portanto, são construções problemáticas.
Um aspecto central para explicar a contemporaneidade é a compressão espaço-temporal, a aceleração dos processos globais, de forma que se sente que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, que os eventos em um determinado lugar têm um impacto imediato sobre as pessoas e lugares situados a uma grande distância. Já que todas as identidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólicos, elas também sofrem o efeito desta compressão espaço-tempo. Giddens (1995) reforça esta idéia quando afirma que a modernidade separa, cada vez mais, o espaço do lugar, ao reforçar relações entre outros "ausentes", distantes (em termos de local), de qualquer interação face-a-face (p.18).
Da mesma forma, Virilio, autor francês que discute a sociedade contemporânea, afirma que O importante não será mais durar, será 'gozar' - a qualidade da vida dependerá da intensidade do instante e não da estabilidade da duração (1990, p. 95). Nas discussões sobre o quanto o tempo está tomando conta de referências geográfico-topológicas, chega a cunhar a expressão cronopolítica como contraponto à política do espaço e da cidade. Ainda coloca a importância do deslocamento, cada vez mais acelerado que, paradoxalmente, traz o sujeito ao mesmo ponto de partida.
Estes pontos iniciais servem para circunscrever alguns dos pólos do caleidoscópio que estamos utilizando para pensar, então, sobre as identidades, ou, em outras palavras, sobre as formas de ser e de habitar estes tempos pós-moderno.
Alguns teóricos podem nos acompanhar nesta caminhada de interrogações sobre o ser cibernético. Assim, proponho uma breve incursão na obra de pensadores tais como Pierre Lévy e Paul Virilio.