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A etmologia da palavra sujeito advém de sub + etno: em baixo, situado. Inicialmente é um termo referido à substância das coisas materiais, ao mundo objetivo e não ao sujeito. Atualmente, porém, sujeito faz sentido em oposição a objeto, remetendo à idéia de substância - o que está por baixo. Desta forma, remete a uma concepção essencialista, a uma noção de interioridade. A noção de subjetividade, advinda de sujeito refere-se a sentimentos, à interioridade em oposição ao mundo objetivo e aos outros sujeitos.
Indivíduo diz respeito ao que é indivisível, a última parcela social indivisível, compondo-se em oposição à idéia de sociedade. Neste sentido, este conceito adquire sentido no deslocamento da sociedade para o homem. A identidade, em conseqüência, é o que mais ressalta o aspecto grupal e coletivo da formação do indivíduo, opondo-se à similaridade com outros indivíduos e à diferença dentro do grupo. A ação política na identidade ganha centralidade.
Segundo Stuart Hall (1992), o conceito de identidade, no período da pós-modernidade, está em posto em xeque. O autor questiona os estágios que imprimiram uma versão particular do sujeito humano - com certas capacidades humanas fixas e um sentimento estável de sua própria identidade e lugar na ordem das coisas na modernidade e como esta versão está sendo descentrada na modernidade tardia. Neste sentido, cita autores diferentes como Giddens, Harvey e Laclau que abordam as mudanças ocorridas no mundo chamado convencionalmente de pós-moderno, concordando que a descontinuidade, a fragmentação, a ruptura e o deslocamento são características deste momento histórico de final do século XX. Hall aponta, nesta mesma linha de raciocínio, que a identidade moderna é descentrada, ou seja, é deslocada ou fragmentada, havendo uma perda do sentido de si como um elemento estável e um descentramento do sujeito de seu lugar no mundo e com relação a si mesmo.
No terreno de embate de identificações rivais e deslocantes a subjetividade tornou-se politizada, tratando-se, então, da política da diferença.
No Iluminismo, porém, esta idéia era diferente, havia uma noção de individualismo, assentada em um indivíduo que tinha apoio na tradição e nas estruturas, afastado da "grande cadeia do ser" (da religião) e constituindo-se em soberano.
Segundo Hall (1992), Raymond Williams traz dois significados de indivíduo: indivisibilidade e singularidade, distintividade e unicidade. Aponta os movimentos históricos que atuaram no sentido de construir esta idéia de indivíduo, a Reforma e o Protestantismo. Tais movimentos teriam libertado a consciência individual das instituições religiosas da Igreja. O Humanismo Renascentista, por sua vez, colocou o Homem no centro do universo e as revoluções científicas conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza. Desta forma, o Iluminismo centrou a imagem do Homem racional, científico, libertado do dogma e da intolerância perante o qual se estendia a totalidade da história humana, para ser compreendida e dominada.
O sujeito da razão, com o desenvolvimento dos aparatos da modernidade (estado nacional, economia capitalista, por exemplo) tornou-se enredado nas maquinarias burocráticas e administrativas, o que deu base para a constituição da noção sociológica de indivíduo. Esta noção, apoiada nas proposições da biologia darwiniana e nas ciências sociais constituíram um sujeito biologizado e socializado. Assim, a internalização do exterior no sujeito e a externalização do interior através da ação no mundo social constituem a descrição sociológica primária do sujeito moderno e estão encapsuladas na teoria da socialização (Hall, 1992, p.12).
Estas noções foram se deslocando com algumas contribuições teóricas. Neste sentido, tiveram efeito as críticas de Freud ao sujeito psicológico, as críticas da razão instrumental da escola de Frankfurt e as críticas da filosofia da linguagem ao sujeito constituinte de sentido.
Seguindo a argumentação de Hall, podemos apontar algumas rupturas tanto em nível teórico quanto político que possibilitaram o surgimento da idéia de identidade enquanto algo não definível, não fixado. Inicialmente, podemos colocar a tradição do pensamento marxiano, com a idéia de que não há uma essência universal do homem e que essa essência não é atributo de cada indivíduo singular. Posteriormente, com a crítica que o inconsciente freudiano instaurou, colocando a noção de que existe um sistema que preexiste ao sujeito, que há um outro da razão que produz efeitos, ou seja, o recorte freudiano aponta que o inconsciente produz efeitos que o consciente - lugar da razão - não controla. Além disso, Michel Foucault, com seus trabalhos sobre a genealogia do sujeito moderno e com a idéia de disciplina, de poder/saber que transforma-nos em corpos dóceis aponta para o engendramento histórico-social do ser humano que é, através de vários dispositivos, transformado em sujeito. Em nível político-social, marca-se o impacto do feminismo. Este movimento opunha-se ao individualismo, apelava para a identidade social dos sustentadores dos movimentos de "minorias" (mulheres, gays e lésbicas, negros), instaurando, desta forma, o momento da política da identidade - uma identidade por cada movimento social. Questionando a distinção entre dentro e fora, entre privado e público, proclamou o slogan: o pessoal é político. Assim, houve um movimento de politização da subjetividade, abrindo a questão das diferenças que existem para além da sexual - incluindo-a, obviamente, neste processo.